Agrobiodiversidade e autonomia alimentar

Você já ouviu falar em agrobiodiversidade? Venho pesquisando sobre o tema há anos, mas confesso que só percebi a real importância desse debate quando resolvi plantar minha primeira horta doméstica.

Agrobiodiversidade é como se define a diversidade de plantas e animais encontrados livremente na natureza e usados na alimentação e agricultura, bem como todos os outros seres vivos necessários para completar esse sistema, como as abelhas que polinizam as plantas, por exemplo.

Venho pesquisando sobre a conservação da agrobiodiversidade há anos, mas confesso que só percebi a real importância desse debate quando resolvi plantar minha primeira horta doméstica, logo após defender minha tese de doutorado e que abordou, entre outras coisas, justamente essa questão.

Explico: a pesquisa de doutorado foi feita em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. Durante meses, acompanhei agricultores tradicionais em suas hortas, campos, roçados e florestas. Também descasquei muita mandioca e até ajudei a torrar farinha, mas a verdade é que não cheguei a pegar um dia sequer na enxada! Lembro que quando estava em campo, por exemplo, fui muito questionada sobre viver em apartamento, não ter quintal, não saber “ticar” um peixe nem depenar uma galinha, acordar tarde demais (às 7 horas da manhã!), não comer ensopados e pirão e ter dificuldades para descascar rapidamente uma mandioca. Curiosamente, não saber plantar não foi necessariamente um espanto para eles… um sinal de como nós que moramos na cidade estamos distantes desta prática tão milenar.

Um ano mais tarde, porém, depois de toda essa experiência em Cruzeiro do Sul, tive a oportunidade de me mudar para uma casa com jardim em Atibaia, no interior de São Paulo, e resolvi que era hora de aprender a plantar. Rá! Mal sabia como seria difícil fazer minha primeira horta!

Pra começar, saí perguntando aos vizinhos se eles poderiam doar mudas para horta, afinal, foi assim que aprendi em Cruzeiro do Sul. Lá, as sementes e mudas de plantas são quase sempre trocadas, inclusive as manivas de mandioca, usadas em grande quantidade no plantio de mandioca para a produção de farinha.

Para quem não conhece a farinha de mandioca de Cruzeiro do Sul, ela é muito apreciada em toda Amazônia ocidental. Há uma vasta produção e comercialização dessa farinha. Em um plantio de um hectare, por exemplo, são abertas cerca de 3 mil covas de mandioca. Mesmo assim, não escutei um relato sequer dos agricultores em Cruzeiro do Sul de que essas manivas fossem vendidas. Em geral, eles costumavam manter seus próprios estoques de manivas – guardadas da colheita anterior para serem usadas no próximo plantio. Mas caso precisassem de outras manivas, por diversos motivos, eles recorriam aos parentes, vizinhos e amigos para ajudá-los.

Isso não significa que não houvesse a comercialização de plantas na região. Mudas de laranja, limão e açaí, por exemplo, poderiam ser compradas. Em geral, também utilizava-se sementes híbridas de melância, tomate e alface, por exemplo. Mas nada muito além disso, por causa dos hábitos alimentares locais. Por mais que encontrasse agricultoras voltando da cidade com pacotes de sementes industrializadas de berinjela e cenoura, por exemplo, nunca vi essas plantas nos canteiros por onde passei.

Esse foi um grande choque ao tentar fazer minha primeira horta em Atibaia, São Paulo: aqui, se quisesse plantar as hortaliças que costumo comer, teria que comprar sementes e mudas em lojas especializadas. Não só porque os vizinhos não fazem as trocas, mas, principalmente, porque meus hábitos alimentares foram formados sobre sementes híbridas e industrializadas e que possuem estratégias biológicas para não se reproduzirem.

Era justamente por isso que não havia trocas dessas sementes. Hortaliças como alface, cenoura, rúcula, couve, tomate, pimentão, pepino, beterraba, abobrinha, brócolis, rabanete e berinjela, por exemplo, são provenientes dessas sementes. Essa é a questão central da conservação da agrobiodiversidade. Cada vez mais estamos fortalecendo uma cultura alimentar baseada em sementes produzidas em laboratórios.

Os desafios para fazer a horta, contudo, não pararam por aí. Por mais que os vendedores de sementes tivessem me dado uma tabela sobre as melhores espécies para aquela época do ano – e de também ter feito uma extensa pesquisa na Internet sobre plantas companheiras e antagônicas, a horta saiu um completo desastre!

A lagarta comeu toda couve, a alface não se desenvolveu (porque os pés foram plantados muito próximos uns dos outros), o brócolis ficou roxo e raquítico, o rabanete nem brotou, o tomatinho ficou extremamente amargo e a cenoura ficou cheia de deformidades… a única semente que se desenvolveu direito foi a abobrinha. Uma lástima!

Fui fazer então uma nova pesquisa, com os agricultores convencionais e orgânicos da cidade. Que vale lembrar, são adeptos de uma agricultura que não é considerada “tradicional”. Se por um lado, a convivência com agricultores orgânicos locais fez com que eu aprendesse a melhorar a dinâmica da horta – eles me ensinaram, por exemplo, como cuidar do solo, me indicaram adubos que deixam os alimentos mais doces, me deram sementes e mudas. Por outro, também descobri que muitos agricultores, orgânicos e convencionais, pagam royalties sobre as mudas. Isso quer dizer que eles precisam pagar um valor a mais pelas mudas devido aos custos de desenvolvimento das matrizes dessas plantas. No caso do famoso morango de Atibaia, essas mudas são produzidas em laboratório na Califórnia, nos Estados Unidos e depois reproduzidas em viveiros no Chile, de onde são importadas para cá.

Pois bem… Há anos os jornais e mídias em geral vêm noticiando que o pagamento de royalties tornou-se uma prática comum na agricultura, principalmente nos casos das sementes transgênicas, como milho e soja. O que eu não imaginava é que os royalties também se aplicavam a frutas como morango, melão e até flores, como descobri mais tarde. Aliás, eu mesma não sabia que o morango é uma fruta produzida em laboratório há mais de 35 anos!

Esse processo é realmente devastador para a agrobiodiversidade. É o que a ativista indiana Vandana Shiva vem alertando há tempos: “estão pilhando nossa natureza”! Cada vez mais as sementes estão deixando de ser livres. E é nessa trajetória de apropriação da natureza que muitos agricultores estão se tornando reféns das empresas de sementes. E a sociedade, de modo geral, está perdendo a autonomia sobre sua alimentação, um bem vital para manutenção da vida na Terra.

Ainda bem que nem tudo está perdido! Existe um grande número de pessoas, no Brasil e no mundo, fazendo um movimento contra-hegemônico pelo bem estar e pela autonomia da sociedade. São pessoas que realizam feiras de trocas de sementes e mudas livres, que mantêm bancos de sementes crioulas, que plantam PANC, que atuam na defesa pela alimentação adequada e saudável. Pessoas que lutam por uma agricultura livre de agrotóxicos e transgênicos e que espalham os princípios da Agroecologia.

Principalmente, pessoas que conhecem profundamente a natureza e os ciclos agrícolas, e que têm um verdadeiro dom para cultivar: os agricultores tradicionais. Por que não existe agrobiodiversidade sem agricultores que carregam e trocam suas sementes e mudas livres. A comercialização de sementes pode até funcionar em sistemas que mercantilizam o alimento. Mas elas jamais conseguirão assegurar de fato nosso direito alimentar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.