Agroecologia e Democracia

Você sabe quais são os princípios da Agroecologia? Quem explica é a professora Irene Maria Cardoso, da Universidade Federal de Viçosa – UFV e uma das coordenadoras do grupo de trabalho sobre conhecimento agroecológico da ABA, onde atuou como presidente durante 4 anos, de 2013 a 2017. Nesta entrevista, Irene fala sobre o papel da ABA para a transição agroecológica no Brasil e principalmente, sobre democracia e bem-viver.

Irene Maria Cardoso é professora do departamento de solos da Universidade Federal de Viçosa e uma das coordenadoras do grupo de trabalho sobre conhecimento agroecológico da Associação Brasileira de Agroecologia – ABA, onde atuou como presidente durante 4 anos, de 2013 a 2017. Nesta entrevista, Irene explica quais são os princípios da Agroecologia, o papel da ABA para a transição agroecológica no Brasil e principalmente, sobre a importância da democracia para o desenvolvimento da agroecologia no país.

Irene, pra começar, conta um pouco como começou sua relação com a Agroecologia?

Faz muitos anos! Na verdade, foi em 1981. Eu sou filha de agricultores familiares, gostava e gosto muito da roça, por isso decidi fazer agronomia. E quando iniciei a faculdade, em 1980, fizemos uma greve que durou o semestre inteiro. Durante esse período, pra gente fazer alguma coisa, o centro acadêmico de agronomia organizou algumas hortas escolares. Após a greve, também iniciamos o que chamávamos de área de plantio, uma área na universidade onde plantávamos hortaliças. A gente achava lindo jogar veneno, jogava veneno em tudo! Mas pouco tempo depois, em 1981, foi realizado o primeiro Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa, em Curitiba, e cinco estudantes aqui da Universidade Federal de Viçosa (UFV) foram ao encontro e voltaram animados, falando que não tinha essa coisa de usar veneno. Um dos meninos era do centro acadêmico e outra era envolvida com a história dos grupos da horta e da área de plantio. Eles falaram que era bobagem essa coisa de jogar veneno, horrível, perigoso e nós paramos imediatamente de usar veneno.

Então tudo começou com o encontro de agricultura alternativa…

Sim… essa greve desestabilizou muito o movimento estudantil e logo depois a gente começou a se organizar para retomar o movimento. E já vinha com esse movimento de agrônomos que estavam por trás do Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa, muitos eram da Federação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil, principalmente um grupo de São Paulo que tinha como componente a Ana Maria Primavesi. Tinha um grupo de pessoas e agrônomos bem militantes e isto se dava no momento de efervescência política da década de 80, com a retomada da democracia, todo mundo se organizando, criando grupos, começaram os grupos de agricultura alternativa nas universidades… E a gente retomou o movimento estudantil, a coordenação do centro acadêmico (CA) de agronomia, eu fui coordenadora interna do CA e começamos a fazer uma discussão política da agricultura. Logo depois, em 84, nós fizemos o Congresso Nacional dos Estudantes de Agronomia em Viçosa e começamos a aprofundar a questão dos agrotóxicos. Fizemos um mural do congresso, que depois virou o mural da agricultura alternativa contra os agrotóxicos. A universidade não queria nem deixar a gente ter o mural, mas aí essa discussão começou e nunca mais parou.

O que é a agricultura alternativa?

Alternativa ao modelo dominante de agricultura, denominado Revolução Verde (mas que de verde não tem nada), que tem como um de seus componentes o uso dos agrotóxicos. Nós sempre questionamos esse termo. “Alternativa a quê?” Aí em 1989, a ASPTA traduziu o livro “Agroecologia: as bases para a agricultura alternativa”. Foi um livro organizado por Miguel Altieri, e tinha muitos autores, inclusive o primeiro capítulo que é maravilhoso é de uma mulher, Susanna Hecht. Além do livro, alguns brasileiros, incluindo colegas e amigos de Departamento, fizeram um curso de agroecologia no Chile e tiveram contato com grupos da América Latina que também estavam discutindo isso. E a terminologia agricultura alternativa foi sendo substituída por agroecologia. Esse foi o caminho…

Por que começou essa crítica contra os agrotóxicos?

Em 1964, o modelo da Revolução Verde entra de vez no Brasil, mas já em 1962, Raquel Carson escreveu o livro Primavera Silenciosa, que criticava a Revolução Verde e o uso de agrotóxicos. A retomada da democracia permitiu aos brasileiros engrossar as críticas internacionais a este modelo. Nesta época, nós também tivemos contato com o pessoal da educação popular e dos movimentos sociais. Em meio a este debate é que se insere a agricultura alternativa. Na época criou-se a Rede-PTA (Rede de Projetos de Tecnologias Alternativas). Esta Rede foi a base para a criação, em parceria com vários movimentos sociais, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Muitos desta rede tinham como referência Paulo Freire, que ensinava que o conhecimento popular, do povo, era importante. E o povo estava se organizando com o apoio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que tinha como referencial teológico a Teologia da Libertação. Por isso a gente fala que aqui no Brasil a Agroecologia nasce enquanto agricultura alternativa, um movimento contra o modelo hegemônico de agricultura e em parceria com a prática dos agricultores.

Mas Agroecologia não é uma ciência?

No Brasil, mais tarde, quando o termo agricultura alternativa migrou para agroecologia, é que agregou a dimensão enquanto ciência. O título da primeira edição do livro editado por Miguel Altieri (1989) é justamente “Agroecologia, as bases científicas da agricultura alternativa”. Enquanto ciência, a agroecologia buscou seus princípios na agricultura tradicional, nos povos e comunidades tradicionais. Por isso falamos que a agroecologia não nasceu nas universidades e centros pesquisas. Ela nasceu com o povo, e, talvez, essa seja uma das razões pela qual muitos cientistas a rejeitam. Os cientistas das universidades sistematizaram os princípios da agroecologia a partir da agricultura tradicional. A partir daí é que a agroecologia vai adentrando a academia e ganhando o status de ciência. Portanto, os princípios da agroecologia não vêm da academia, os princípios vêm dos povos e das comunidades tradicionais.

Imagino que você tenha uma enorme experiência com os agricultores pelo fato de ter sido presidente da ABA… como esses princípios funcionam na prática, no dia a dia, dos agricultores agroecológicos?

Bem, não foi enquanto presidente da ABA que tive os primeiros contatos com os agricultores, mas, claro, a presidência da ABA me deu oportunidade de conhecer muitas experiências por todo o Brasil. Como disse, sou filha de agricultores familiares, eu nasci e fui criada na roça. Na verdade, acho que nunca saí da roça, mesmo quando estava morando na cidade. E desde a graduação, eu já tinha essa compreensão, mais filosófica e teórica, da necessidade de trabalhar em prol de uma outra agricultura. Então na graduação, fiz vários estágios na extensão rural. Após formada, trabalhei na extensão rural do Paraná. E quando voltei para o mestrado na UFV, em 1989, ex-colegas e amigos meus, em parceria com agricultores/as, tinham criado uma ONG em Viçosa chamada Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA).

O CTA fez parte da Rede-PTA desde o início e atualmente faz parte da ANA. Com o CTA fomos aprofundando as práticas da agroecologia. E no mestrado eu trabalhei com etnopedologia, que é a ciência que estuda o conhecimento dos agricultores sobre o solo. Fiz esse trabalho em parceria com o CTA, em uma comunidade rural de Ervália, Minas Gerais. Dentro das universidades, nós trabalhamos com a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, um princípio constitucional de 1988, que só é possível de ser praticado a partir do diálogo com as comunidades. A “indissociabilidade” é que possibilita a articulação das três dimensões da agroecologia: movimento, ciência e prática. Então eu sempre procurei realizar pesquisas, no meu mestrado, no doutorado, na orientação de meus estudantes, a partir deste princípio da indissociabilidade e em parceria com os agricultores/as.

Afinal, quais são os princípios da agroecologia?

Podemos falar em princípios ecológicos, sociais e epistemológicos. Um dos princípios epistemológicos é aceitar e reconhecer a importância de diversos saberes. A gente rechaça essa ideia de que o conhecimento científico é superior aos demais conhecimentos. Trabalhamos na contra hegemonia, não aceitamos a ideia de que só o conhecimento científico é válido. Na nossa compreensão, todos os conhecimentos são importantes, o conhecimento dos agricultores, camponeses, indígenas, quilombolas. Eles estão no dia a dia no manejo e no entendimento de sistemas agrícolas complexos. Então esses agricultores, esses camponeses estão no dia a dia lidando com a terra, observando e por isto possuem um conhecimento extremamente importante, muito mais apurado que dos cientistas.

Outro princípio, ecológico, é dos sistemas complexos, diversos e não dos monocultivos. Porque é a diversidade que é responsável pelos benefícios da natureza. A gente entende, portanto, que tem que trabalhar em parceria com a natureza. É uma reaproximação com a natureza, não é como a ciência moderna, que procura dominar a natureza. Nós não queremos dominar a natureza, queremos trabalhar em harmonia e parceria com a natureza. Um outro é uma visão mais sistêmica, holística, ver o todo, ver como é que as coisas se relacionam. Porque a ciência cartesiana separou as partes para entender o todo e temos uma crítica muito grande a isso, porque o todo não é igual a soma das partes. O todo tem sinergias, tem interações maiores do que a soma das partes.

Qual a papel da biodiversidade nesse contexto?

Para a agroecologia, a robustez ecológica vem da biodiversidade, pois é ela que provê os benefícios da natureza. Por exemplo, tem um saber popular que diz que se você matar um marimbondo sua riqueza vai embora. É que o marimbondo é um exímio controlador biológico, ele come larvas e a gente sabe disso. Um dia um agricultor falou assim: “ó, eu já vi mesmo, um dia um marimbondo abriu com o ferrão a folhinha do café e comeu a larva do bicho mineiro (faz uma mina na folha do café) que estava lá dentro. Eu nunca vi o marimbondo do nada raspar a folha do café e comer a larva que estava lá dentro”. O bicho mineiro é uma das principais “pragas” do café. Então esses benefícios que vêm da natureza ocorrem a partir da sinergia dos componentes que têm ali. Não tem marimbondo se usar agrotóxicos, não tem marimbondo se não tiver alimento para ele.

O que é essa sinergia de que você fala?

Para simplificar podemos dizer que são as parcerias que ocorrem na natureza. Por exemplo, se você planta um abacateiro para produzir frutos, ele também atrai passarinho. O abacate é a biodiversidade planejada, o passarinho biodiversidade associada, que pode se alimentar de larva e fazer o controle biológico. A biodiversidade associada traz muitos benefícios aos seres humanos. E quando a gente fala de biodiversidade, não é apenas biodiversidade acima do solo, mas também no solo. A terra enquanto mãe, enquanto vida é muito importante. E quem garante essa qualidade, essa vida no solo também é a biodiversidade. A gente fala que é uma sinergia do que está debaixo do solo e do que está acima, é cuidar do solo para cuidar das plantas e cuidar das plantas para cuidar do solo. Esse é um princípio ecológico importante, que é buscar as sinergias que tem na natureza. Por isto, monocultivos não combinam com a agroecologia.

Além disso, a biodiversidade e o solo também são importantes para a qualidade e quantidade da água. A sustentabilidade ecológica vem da água, do solo, da biodiversidade e do ar de qualidade. Os agricultores dizem que se os vizinhos utilizam agrotóxicos eles percebem pelo ar. O ar fica com cheiro ruim. Se priorizamos as sinergias entre os componentes da natureza, estamos fortalecendo a autonomia dos agricultores. Por exemplo, o controle biológico, um organismo controlando o outro, faz com que os agricultores não necessitem comprar agrotóxicos, o que também vai diminuir a necessidade de comprar remédios. Uma agricultura diversa garante a soberania alimentar, com isto diminui a necessidade de comprar alimentos. Então, autonomia significa depender menos do mercado para comprar coisas.

E os princípios sociais?

A gente trabalha muito com a equidade social, equidade de gênero, de raça. Não é agroecológico quem é machista, quem não respeita as mulheres, quem não respeita os homossexuais e quem não respeita as diferenças raciais. Assim como queremos uma equidade na natureza, ou seja, não queremos massacrar os seres da natureza, nós também não queremos nos massacrar. Por isso a discussão de gênero está muito presente na agroecologia. O papel da mulher na manutenção da biodiversidade e da segurança e soberania alimentar da família é muito importante. Quando dizemos que sem feminismo não há agroecologia estamos querendo fortalecer duas questões: não aceitamos a opressão da mulher e reconhecemos o conhecimento e o papel da mulher na agroecologia. Também queremos que tenha uma equidade na distribuição de renda. Não é possível aceitar os impérios agroalimentares, que dominam todo o sistema de produção de alimentos, de beneficiamento e da distribuição dos mesmos, ou seja, dominam da semente e do solo até a mesa dos consumidores, com a única finalidade de obter lucros exorbitantes. Isso gera muitas injustiças.

Os princípios sociais trazem pautas bem progressistas! Como isso tem sido dialogado no campo?

A gente faz isso com as organizações dos agricultores. Por exemplo, a gente estava em um intercâmbio agroecológico e o presidente do sindicato puxou a pauta da reforma da previdência e então fizemos a discussão política do momento. A discussão baseada nos princípios ecológicos é também política. As coisas estão relacionadas! Outro exemplo: eu fui em uma comunidade em que os agricultores estavam reclamando o tempo todo do governo, porque a ração dos animais estava muito cara. Mas porque tem que comprar ração? É possível produzir os alimentos dos animais na propriedade e, com isto, não depender de comprar ração. Então, a partir daí podemos fazer a discussão política relacionada à agricultura. Essa questão dos alimentos dos animais também permitiu discutir a questão dos transgênicos. A maioria das rações adquiridas no mercado são preparadas como produtos transgênicos cultivados com muito agrotóxicos. Quais são os interesses que estão por trás dos transgênicos e dos agrotóxicos? A discussão dos agrotóxicos está muito relacionada com a saúde. Para ter saúde é preciso ter alimentação e ambiente de trabalho de qualidade.

Em relação a saúde, por exemplo, é muito importante o reconhecimento do papel das plantas medicinais e das terapias integrativas. Como alguns agricultores dizem “moramos em cima de uma farmácia e não sabemos o endereço”. Ou seja, temos muitas plantas medicinais, mas não as conhecemos. Com isto também podemos discutir o SUS. A gente diz que com uma mão a gente constrói a não necessidade do SUS e com a outra a necessidade de um SUS forte e universal. O que isto significa? Que a partir da alimentação de qualidade teremos mais saúde, e que junto com o uso das plantas medicinais e terapias integrativas, não precisaremos do SUS e dos remédios farmacêuticos. Entretanto, é preciso de um SUS forte, para caso seja necessário.

Fiquei interessada nessa questão de gênero. Fiz a pesquisa de doutorado com agricultores familiares e o machismo ainda era muito presente na época, isso em 2010…

Continua sendo! Discutimos isto em nossos encontros, procuramos favorecer a presença das mulheres nos encontros, cobramos a presença delas. Além disto, há programas e projetos específicos para tratar do tema. Por exemplo, o CTA tem um projeto específicos para trabalhar com a mulher e seus quintais produtivos, pois o quintal é um lugar de autonomia das mulheres. Este projeto utiliza um instrumento, criado pelo CTA, que é a caderneta agroecológica. Nesta caderneta as mulheres anotam toda a produção dos quintais, separado em quatro colunas: i) o que consome; ii) o que vende; iii) o que troca e; iv) o que dá. Com isto começamos a descobrir que os quintais garantem 70% da soberania alimentar das famílias e em média, aproximadamente, um salário mínimo por mês, considerando o que vende e o que deixa de comprar. Ou seja, é uma renda indireta invisibilizada! A partir disso tem mulher que diz que só anotou 3 meses. E porque parou? Segundo ela, não precisa mais, pois quando o marido diz alguma coisa e ela não gosta, simplesmente aponta para a caderneta.

Essas cadernetas viraram um projeto nacional. Uma mulher do Pará deu um depoimento lindo dizendo o tanto que mudou a vida dela, incluindo sua relação com o marido, que ficou muito melhor. Agora toda vez que ela sai, o marido diz que ela já está indo buscar novidade! A vizinha dela, ao contrário, se separou. A caderneta contribuiu para empoderar as mulheres porque visibilizou a importância do trabalho delas, mas isto nem sempre é sem conflito. Essa discussão do machismo, em muitos casos, é problemática, conflituosa, tem homem que não aceita, mas tem homem que aceita, tem homem que se transforma. O machismo parte do patriarcado, não é ruim só para as mulheres, é ruim para os homens e para os filhos também. Mas claro, os homens não têm que ser necessariamente machistas. Precisamos de políticas específicas para o combate ao machismo e ao patriarcado e de empoderamento das mulheres, o que anda meio escasso ultimamente.

Esses agricultores com quem você tem se relacionado, eles foram incorporados pela Revolução Verde e depois passaram por uma transição agroecológica? Como é a prática agrícola dessas populações?

A Revolução Verde na Zona da Mata não foi implantada da mesma forma que em regiões planas e que permitem a mecanização, mas isto não significa que ela não foi implantada na região, principalmente a partir das sementes híbridas, agrotóxicos, adubos químicos, monocultivos e desmerecimento do conhecimento dos camponeses. Entretanto, a agricultura familiar resiste e existe na região, com sua cultura e seus cultivos! Então faz 30 anos que trabalhamos em parceria com os agricultores camponeses da região e suas organizações, mas em 2008 iniciamos o que denominamos de “intercâmbios agroecológicos”, inicialmente com o apoio do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do MDA (extinto Ministério de Desenvolvimento Agrário), posteriormente com o apoio de vários ministérios, que aportaram recursos financeiros para a construção dos Núcleos de Estudos em Agroecologia (NEAs) em todo o Brasil – hoje já não contamos mais com os projetos governamentais, mas continuaremos trabalhando, em um ritmo talvez mais lento, e como agricultura familiar, resistindo e existindo!

E dentre os agricultores que participam dos intercâmbios, muitos nunca usaram veneno, mas usaram semente híbrida e muitos ainda usam adubo químico, ou seja, parte do pacote da Revolução Verde. Tem agricultor que já usou veneno e que com os intercâmbios parou. Na verdade, na agroecologia, a boa notícia é que quem quiser, entra para o processo de transição agroecológica, então, participa dos intercâmbios quem quiser. A outra notícia, melhor ainda, é que a gente nunca sai da transição agroecológica, pois como os agricultores daqui dizem “a agroecologia é uma aprendizagem infinita”. A metodologia que utilizamos nesses intercâmbios é baseada na horizontalidade dos saberes, ou seja, todos ensinam e todos aprendem. Então nesse trabalho em parceria com os agricultores, nós aprendemos muito com eles e eles aprendem muito conosco, porque muitas coisas eles observam na prática, mas não entendem os fundamentos teóricos, e é com isso que nós contribuímos. Outra forma de contribuir é com a sistematização e socialização dos conhecimentos. Nós temos uma série de materiais produzidos a partir desse trabalho que contribui para o aprofundamento do conhecimento que eles têm ao mesmo tempo em que eles aprofundam o nosso. A partir dos intercâmbios nós fazemos pesquisa, vamos para o laboratório, para o campo, fazemos coleta dados, analisamos com estatísticas, publicamos em revista internacional e depois socializamos com os agricultores.

Você teria algum exemplo para dar sobre os desafios que esses agricultores enfrentam na produção e como a agroecologia funciona nesses casos?

Recentemente, por exemplo, um dos agricultores, que hoje é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Divino, relatou que ele estava tendo problemas com um inseto-praga de café, comumente denominada berne da raiz do café. Uma “praga” que é secundária, mas que nessa região, especificamente, nesse município, é problemática. Este inseto pode ser controlado a partir da melhoria da qualidade do solo, do microclima do cafezal e com o uso de um fungo entomopatogênico, comumente presente no solo, o metarhizium. Havíamos feito uma pesquisa com estes fungos e a partir dos nossos resultados conseguimos dialogar com ele sobre o problema e como melhorar a qualidade do solo. Com esse diálogo, ele conseguiu identificar coisas que a gente não tinha conseguido identificar, como por exemplo, os inimigos naturais da praga. Ele controlou o problema e hoje ensina para outros agricultores. Isto é uma coisa libertadora!

Todas as aproximações com os agricultores são feitas a partir de projetos científicos? Ou através de políticas públicas? Como funciona?

Projeto científico não existe sem política pública. Ou o Estado paga, ou paga quem tem dinheiro, o que não é o caso do agricultor familiar. Por isso a gente fala que a ciência não é neutra, pois sempre há um interesse por trás e este interesse relaciona-se com quem paga ou com quem controla o dinheiro público, as instituições de pesquisa, por exemplo. Nós nos aproximamos dos agricultores através dos projetos de pesquisa ou extensão e de disciplinas da universidade, ou seja, através do ensino, da pesquisa e da extensão e de forma articulada. Nossas aproximações são no território deles e também na universidade. Os agricultores vêm nos eventos da Universidade. Temos um evento denominado Troca de Saberes que ocorre m julho na UFV e que reúne aproximadamente 800 pessoas. E tem o nosso parceiro que viabiliza muitas interações com os agricultores/as, que é o CTA, o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata, uma ONG que trabalha direto com os agricultores e com assessoria agroecológica.

O CTA capta recursos às vezes do Estado, às vezes da cooperação internacional. Esta ONG está em uma rede nacional que a gente chama de Articulação Nacional da Agroecologia – ANA. A ABA, que é a Associação Brasileira de Agroecologia participa da ANA. Mas a ABA também tem suas próprias redes, suas próprias ações, por exemplo, organiza o CBA (Congresso Brasileiro de Agroecologia). A partir destas redes, vamos articulando, desde o local até o nacional e internacional, com os agricultores, técnicos, pesquisadores, estudantes, consumidores e etc. É com estas redes que eu realizo meus projetos. Por exemplo, tenho projeto em parceria com a Holanda e com o México. E o nosso cartão postal não é a universidade, não é meu projeto, minha pesquisa, não sou eu! É a interação da universidade com essa rede. Não adianta achar que uma coisa existe sem a outra. Eu falo o tempo todo: tem que ter um pé no avião e um pé na roça, senão desarticula, perde o foco. O campo é que te enraíza, te centraliza. Podem dizer o quanto quiser que a agricultura camponesa não existe e que não é possível produzir sem veneno. Para mim, não é assim, pois estou o tempo todo com os agricultores, vendo o que eles estão fazendo, como eles estão se articulando, como o conhecimento deles está se fortalecendo na agroecologia! Vejo o quanto muitos preferem ficar na roça à cidade! Eu mesma, se ficar mais de um mês sem ir à roça, fico meio deprimida.

Como a Agroecologia conseguiu se inserir justo em uma época em que a Revolução Verde estava se fortalecendo?

Não, a gente se inseriu em um momento em que já havia muitas críticas à Revolução Verde! Veja, aqui no Brasil o pacote da Revolução Verde foi implantado fortemente a partir do golpe de 64, com o governo militar, especialmente na década de 70. Nesta época houve a reforma universitária, a EMATER foi reorganizada, o crédito rural foi fortalecido e a EMBRAPA foi criada. Na verdade, o pacote da Revolução Verde (veneno, adubo químico, mecanização, sementes melhoradas, irrigação e monocultura) foi implantado a partir de políticas públicas (crédito, extensão, pesquisa e ensino). Só que no mundo, as críticas a esse modelo começaram já em 62, com o livro da Raquel Carson (Primavera Silenciosa).

Então já tinha muita crítica a esse modelo e em 1980, com a redemocratização aqui no Brasil, a gente conseguiu espaço para fazer a crítica no país. Era um momento que um conjunto de pessoas estava apontando inúmeros problemas ambientais, sociais e econômicos advindos da Revolução Verde. Não estávamos mais iludidos. Mas era um momento que o modelo tinha muita força, como tem ainda hoje… olha o que é o agronegócio no Brasil, muito forte! E a gente faz isso na contra hegemonia e no conflito de ideias, com visões diferentes, que se contrapõem. O bom da universidade é que ainda é um ambiente mais democrático, que aceita divergência de uma forma mais tranquila, mas não sem conflitos. Aceitam que você também tenha o direito de trabalhar de uma outra forma, mas não é assim as mil maravilhas.

Claro, afinal estamos falando de ciência!

Essa é a grande questão! Não podemos perder isso na universidade, porque nela ainda temos a oportunidade de construir o diferente. E tem que continuar assim, o pior é que este (des)governo que está ai quer acabar com a democracia nas universidades!

Eu já vou entrar nessa questão do governo, mas antes queria saber uma coisa: adianta vir um projeto de fora, ou mesmo uma política pública, que incentive o agricultor convencional a fazer a transição agroecológica?

Tudo ajuda! A gente fala o seguinte: qualquer transformação está dentro de você. Ou seja: quando você faz a opção de fazer a transição agroecológica, ela já começa a acontecer. Se tiver a política pública e tiver incentivo, isso ajuda a ampliar. Tem gente, inclusive, que defende que não precisa de política pública, o que não é o meu caso. Eu acho que a política pública ajuda a engrossar o caldo. Mas para a transformação precisa ter ação coletiva. Não dá para ficar esperando cada um no seu tempo fazer a transição agroecológica, tem muitas ações em redes, todos esses projetos que eu falei, dos vários ministérios em parceria com o CNPQ, apoiaram com editais a construção da agroecologia. Alguns editais, frutos de políticas públicas, apoiaram a criação e fortalecimento dos núcleos de agroecologia nas instituições de ensino e pesquisa. Estes editais ajudaram muito. Outros projetos, como o ECOFORTE, apoiam as instituições que trabalham com agricultura familiar e agroecologia. O ECOFORTE recebeu o apoio do BNDES e da Fundação Banco do Brasil. Alguns destes projetos continuam operando, mas por quanto tempo, não sabemos. Agora se você me perguntar: pode dar certo uma pessoa entrar no processo de transição agroecológica  devido apenas ao incentivo do governo, via políticas públicas, ou apenas por questões econômicas? Pode. Mas, para mim é muito mais seguro quando a pessoa toma a decisão internamente, quando ela decide por ela mesmo que quer mudanças. Como tudo na vida! Por isso a dimensão cultural é também importante na agroecologia. Entendemos que há várias conexões e dimensões, não somente técnica e financeira.

Qual é o papel da ABA para a transição agroecológica aqui no Brasil?

O papel da ABA é articular os profissionais, sejam técnicos, cientistas, professores, dentre outros. É fazer a discussão técnica e científica da agroecologia e aglutinar quem trabalha a partir dessas dimensões. Para isto organizamos eventos e publicações. Organizamos os Congressos Brasileiros de Agroecologia (CBA) e já estamos em sua XI edição, publicamos a Revista Brasileira de Agroecologia, os Cadernos de Agroecologia, a Coleção Transição Agroecológica, em parceria com a Embrapa, dentre outros eventos e publicações. Mas por princípio, a dimensão científica se dá em articulação com as dimensões da agroecologia enquanto movimento e prática. Este é um princípio que está no estatuto da ABA. A ABA, com seu papel mais técnico e científico, participa da ANA (Articulação Nacional de Agroecologia) que tem um papel, dentre outros, de animação política do movimento, a partir das experiências dos agricultores/as. Os eventos organizados pela ANA, como os Encontros Nacionais de Agroecologia, reúnem especialmente agricultores e agricultoras.

Como surgiu a ABA, Irene?

Surgiu no Rio Grande do Sul. Isto é interessante, pois o quarto e último Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa foi realizado em Porto Alegre, em 1989. E no final dos anos 90 e início dos anos 2000, em Porto Alegre, também começaram a ser realizados os seminários de agroecologia. Foi a partir dos seminários que começaram a ser realizados os Congressos Brasileiros de Agroecologia (CBA). O I CBA foi realizado em 2003. Em 2004, durante a realização do II CBA, em conjunto com o V Seminário Internacional de Agroecologia e o VI Seminário Estadual de Agroecologia, em Porto Alegre, criou-se a ABA. A partir daí o CBA começou a ser realizado em diferentes estados brasileiros e a Partir do V CBA, o evento passou a ser bianual.

A ABA participa da implementação das políticas de agroecologia no país?

A ABA é uma referência para essas políticas, pelo menos era… A ABA era chamada para opinar, discutir, conversar sobre as políticas relacionadas à agroecologia. O Professor Francisco Caporal foi presidente da ABA quando ele era o coordenador do DATER, que é o Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural do (extinto) MDA e a professora Maria Virgínia Aguiar foi secretária da ABA quando ela também estava trabalhando no MDA.

Então a ABA teve um papel importante na construção da Política Nacional de Agroecologia. O ponta pé final para a implantação da política foi dado pela Marcha das Margaridas, em 2011, quando as mulheres reivindicaram e a ex-presidenta Dilma acatou. A política foi decretada por Dilma em 2012. E para elaborar as diretrizes da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), o governo contou com a parceria da Articulação Nacional de Agroecologia, da qual a ABA faz parte. Importante lembrar que o Brasil foi o primeiro país do mundo a elaborar uma política de agroecologia e tem servido de exemplo para outros países. Recentemente, a política ganhou um prêmio, como uma das melhores políticas públicas em agroecologia e sistemas sustentáveis do mundo. A política tem inspirado outros países a construírem suas políticas, como o Uruguai e a Argentina. A nossa política foi toda construída de forma participativa, através de vários seminários regionais e nacionais. No decreto da Política estava previsto a criação de uma Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO). Esta comissão elaborou o I Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (I PLANAPO). Acompanhou e avaliou este plano e contribuiu para a elaboração do II PLANAPO. A ABA fez parte da CNAPO em toda a sua existência. Eu, enquanto presidente da ABA, participei da comissão durante 4 anos e continuei mesmo depois de ter saído da presidência da ABA. Da CNAPO participava a sociedade civil e o governo.

Tudo isso aconteceu no primeiro mandato da Dilma?

Sim, em 2012, no primeiro mandato. E a comissão continuou até 2018. A última reunião que nós fizemos foi em dezembro de 2018.

Então o golpe de 2016 não interrompeu?

Enfraqueceu, mas não interrompeu. Esse ano (2019), ela deve ficar em banho maria. A reunião que era para ser em março não aconteceu. É o que a gente já previa, um vazio total [A entrevista foi feita antes do anúncio do decreto 9.784, de 7 de maio de 2019, assinado por Bolsonaro, que extinguiu 55 colegiados que contavam com a participação da Casa Civil, dentre eles a CNAPO].

Qual a importância dessa Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica para a política de agroecologia e produção orgânica no Brasil?

A CNAPO atuava em parceria com a Comissão Interministerial de Agroecologia e Produção Orgância (CIAPO). Havia uma secretaria executiva da CNAPO, articulada com a secretaria da presidência, que mobilizava e organizava as reuniões da CNAPO, que ocorriam trimestralmente. As reuniões ocorriam, exceto uma, no palácio do planalto, o que demonstra a importância da Comissão. Havia uma mesa coordenadora, com a participação da sociedade civil, que articulava as pautas das reuniões e fortalecia as relações interministeriais. Essa era uma política interministerial que envolvia vários ministérios: meio ambiente, saúde, ciência e tecnologia, desenvolvimento agrário, agricultura, pesca, casa civil e secretaria da presidência. A CNAPO e a CIAPO foram propulsoras para a formulação e implantação de políticas de promoção da agroecologia, bem como as políticas de assistência técnica e extensão rural, de criação e apoio aos Núcleos de Agroecologia, de apoio as mulheres, à comercialização, dentre outras.

E agora, qual a perspectiva?

A perspectiva é que a gente tenha resiliência! Que a gente passe por esse momento difícil, mas que saia lá do outro lado mais forte, com capacidade de intervenção na realidade para conseguir o bem-viver. Porque o objetivo da agroecologia é o bem-viver. Nós sabemos que será difícil, mas nós não estamos mortos. Se nos enterrarem, seremos sementes! Não estamos com medo e esse momento vai passar, com dificuldade, mas vai passar. E o próximo congresso da ABA já está marcado! Será na primeira semana de novembro, em Aracaju, pode agendar! Vai ser um congresso com muita força popular e muita força científica. Já fizemos uma reunião maravilhosa da ABA, em março, em Brasília, a ANA também fez uma reunião em Aracaju logo depois da nossa, então nós vamos fazendo as coisas, nos fortalecendo na luta, na alegria, na cultura popular e vamos reinventando a nossa forma de agir.

Como os eventos são realizados? Depende de financiamento público?

Alguns sim, mas já sabemos que teremos dificuldades para fazer os congressos com financiamento público a partir de agora. Os participantes dos congressos (CBAs) pagam suas inscrições. O dinheiro das inscrições é importante para a realização dos CBAs, porém não é suficiente. Mas nós temos que ir aprendendo a fazer as coisas com pouco recurso também. Por exemplo, tem uma Festa do Rosário aqui perto de Viçosa, que tem 130 anos e nunca teve financiamento de ninguém, eles fazem uma festa que alimenta cerca de 1000 pessoas. Então, nós temos que aprender com eles.

Por fim Irene, qual a diferença entre a ABA e a ANA?

A ANA é uma articulação mais ampla, dos movimentos sociais, dos agricultores, das organizações que trabalham com os agricultores, é uma articulação desses movimentos diversos, uma rede de redes. A ABA participa desta rede, da ANA, mas ela tem uma tarefa dentro dessa articulação nacional que é mais técnico e científica. É nessa compreensão que tem a interação. A ANA constrói o ENA, que é o Encontro Nacional de Agroecologia, que por definição, tem a participação de 70% do seu público formada por agricultoras e agricultores, sendo 50% mulher e 30% tem que ser jovem. A ABA constrói os Congressos Brasileiros de Agroecologia e é aberto, participam quantos técnicos tiverem, quantos cientistas quiserem, mas a gente procura levar um número significativo de agricultoras e agricultores e fazer esse debate científico em articulação com a sabedoria popular. É basicamente essa diferença, a ABA, entre as organizações que participam da ANA, tem a tarefa de construir, discutir e aprofundar a questão científica, epistemológica, acadêmica e tecnológica da agroecologia♦

[Não encontramos dados disponíveis sobre o número de estabelecimentos agroecológicos no Brasil. Mas para termos uma ideia, em 05 de agosto de 2019, havia 19.983 certificações orgânicas no Brasil (cadastro de produtores orgânicos, disponível no site do MAPA). O censo de 2006 também indica que havia 4,3 milhões de estabelecimentos de agricultura familiar no Brasil. Isso corresponde a 84% das propriedades rurais produtivas do país. Essas propriedades ocupam apenas 24% da área total destinada à produção agrícola brasileira. Ou seja, 16% dos estabelecimentos de produção agrícola ocupam 76% da área produtiva].

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