Agroecologia na Amazônia

Rede Maniva de Agroecologia, no Amazonas, propõe certificações orgânicas em rede, promove plantas comestíveis não convencionais da Amazônia e debate a importância da agroecologia para a agricultura tradicional da floresta.

A Rede Maniva de Agroecologia vem atuando há alguns anos em Manaus, no Amazonas, propondo certificações orgânicas em rede, promovendo plantas comestíveis não convencionais da Amazônia e discutindo a importância da agroecologia para a agricultura tradicional da floresta. Falamos sobre isso e muito mais com José Guedes, integrante da Rede Maniva. José Guedes é ecólogo, mestre em Ciências de Florestas Tropicais e atualmente faz pesquisa no Laboratório de Nutrição do Solo e Agroecologia no INPA – Manaus.

De que forma a Rede Maniva articula a produção agroecológica e orgânica?

A Rede Maniva surgiu faz cinco anos para que as pessoas interagissem entre diversos grupos, de produtores rurais a instituições científicas, em defesa da agroecologia no estado do Amazonas. Então a rede é muito próspera em relação a isso. Tem tido todo um movimento ao longo desses anos onde é feito uma troca de conhecimentos e vivências. E isso faz com que a ideia de trabalhar em rede se fortaleça.

Que tipo de agricultor participa da Rede Maniva? Existe um movimento de pessoas que não tem tradição agrícola e querem começar a produzir orgânicos em Manaus, por exemplo?

Tem agricultores convencionais que estão migrando para agricultura orgânica e tem outros que sempre produziram de forma agroecológica, porque foram ensinados pelos pais e mantiveram a tradição. E tem também os filhos dos agricultores, que foram criados na roça, depois vieram para Manaus e agora estão voltando para o campo para produzir orgânico. Mas não tem esse movimento de empresários que investem na agricultura orgânica, como acontece em outros lugares, ou então de jovens que não tem tradição agrícola e começam a produzir, esses grupos chamados de Neo Rurais. Isso não acontece aqui em Manaus.

Por que é necessário ensinar agroecologia aos produtores rurais tradicionais da Amazônia? Eles já não tem esse conhecimento? 

Olha, eu não saberia te dizer se esses produtores são tradicionais. A leitura que eu faço da agricultura tradicional é aquela prática do corte e queima da floresta ou da capoeira, essa questão de ir montando espaços de rotatividade, fazer o roçado e depois deixar a capoeira crescer. Só que essa dinâmica do uso da terra em uma região como Manaus já não existe mais. Não tem como fazer essa prática nesse contexto urbano. No entorno de Manaus as terras são caras e não dá mais para o agricultor girar a produção, fazer a rotatividade colocando fogo. Até porque não dá para deixar a capoeira crescer, não tem mais essa possibilidade. Tem muita gente usando o mesmo pedaço de terra e o solo acaba descansando por um tempo muito menor, então o solo não recupera a produtividade. Já temos visto inclusive uso de veneno na plantação de mandioca, que é um alimento tradicional em toda Amazônia. Ou seja, em tese, em uma plantação tradicional, não deveria haver uso de agrotóxicos…

E a agroecologia foca bastante essa questão da saúde do solo… 

Sim! E nessa tradição de corte e queima, com o passar do tempo, o roçado perde força, porque o solo enfraquece, fica pobre e não tem mais como se recuperar se não houver uma ampla rotatividade. Na agricultura tradicional tem esse tempo pra deixar a capoeira crescer e recuperar o solo, mas hoje em dia ninguém mais tem tanta terra assim para cortar a floresta, colocar fogo e fazer a rotação da roça. Existe um processo de recuperação do solo quando você deixa a capoeira crescer, vai recuperando os microrganismos do solo, vai criando uma estrutura do solo, vai melhorando as propriedades físicas e químicas do solo. Hoje não dá mais pra deixar a capoeira crescer, mas dá pra trabalhar a nutrição do solo com os princípios da agroecologia. Por isso a agroecologia é importante nesse contexto de uma grande cidade na Amazônia como Manaus, que tem uma ampla demanda por produção de alimentos.

 

Além de questão do solo, quais são as outras contribuições da agroecologia para os produtores rurais de Manaus?

Dentro da agroecologia tem muito essa discussão do social. Os agricultores de Manaus, por exemplo, estão ficando velhos e os filhos deles estão vindo para a cidade. Então se discute muito como a juventude vai se fixar no campo. Como o conhecimento dos pais e avós será passado para os filhos e netos. Os filhos dos agricultores estão vindo para a cidade para trabalhar de mecânico, vendedor, empregados domésticos, então tem esse contexto de manter a juventude no campo. Também tem o debate sobre o papel das mulheres no campo, sobre o respeito à mulher, a sua valorização. Tem a produção agroecológica, as técnicas, mas tem esse lado social também, a questão econômica, de como esses agricultores serão recompensados pela sua produção. São discussões no âmbito urbano bem importantes. A ideia é que a agroecologia não é algo que se faça sozinho, é para ser feito em coletivos, em redes. É o fortalecimento do coletivo, das pessoas para atuarem em conjunto, para se fortalecerem e conseguirem conquistar juntos o que precisam.

Como funciona a Rede Maniva?

A rede integra um grande número de pessoas e instituições. São 130 membros entre produtores rurais, técnicos, pesquisadores e outros. Dentre as instituições que participam da Rede Maniva, estão EMBRAPA, INCRA, INPA, Universidade Estadual do Amazonas, Universidade Federal do Amazonas, Escola Agrícola, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, órgãos do governo estadual, como a Secretaria de Produção Rural e a Agência de Desenvolvimento Sustentável do governo estadual – ADS, entre outros.

São várias instituições que participam da Rede Maniva! Como isso repercute no trabalho em rede?

O trabalho em rede é fundamental porque potencializa os projetos de agroecologia. Faz cerca de dois anos, por exemplo, uma das instituições que participam da rede, o Museu da Amazônia – MUSA, conseguiu aprovar o projeto ECOFORTE com outros colaboradores da rede e que são os gerenciadores do recurso. Com isso, eles conseguiram comprar maquinário e fizeram capacitação tecnológica para poder aumentar a produção orgânica na região metropolitana de Manaus. Hoje a Rede Maniva está trabalhando para implementar o Sistema Participativo de Garantia na produção agroecológica e orgânica no estado do Amazonas e tem um papel fundamental no projeto de lei que cria a política estadual de agroecologia e produção orgânica.

Essas instituições que participam da Rede Maniva tem uma tradição em defesa da agroecologia?

É importante lembrar que a rede não é formada pelas instituições e sim pelas pessoas que estão nessas instituições! Então essas instituições não acreditam necessariamente na agroecologia, mas as pessoas que participam da rede sim! Além dessas instituições, também participam da rede a Associação dos Produtores Orgânicos do Amazonas – APOAM e a Associação de Produtores Orgânicos de Rio Preto da Eva. A associação de Rio Preto da Eva acabou de ingressar na Rede Maniva. Eles são a terceira Organização de Controle Social – OCS do Amazonas, que certifica a produção orgânica.

A articulação para certificar a produção é resultado de políticas públicas ou é um trabalho independente da rede?

O Sistema Participativo de Garantia – SPG especificamente está surgindo através desse trabalho em rede. Dentro da lei dos orgânicos no Brasil existem três maneiras de garantir que a sua produção é orgânica. Uma é por auditoria, em que se paga para um auditor e ele faz a certificação. A outra é pela declaração de uma Organização de Controle Social – OCS. Com a declaração de OCS o produtor só pode vender orgânico diretamente para o consumidor. Ele pode vender em feiras ou através de cestas, ou seja, tudo tem que ser vendido diretamente para o consumidor. E a terceira é através do Sistema Participativo de Garantia – SPG. Todas essas certificações constam na Lei Nacional de Orgânicos. No estado do Amazonas, porém, ainda não existe uma política pública de orgânicos que incentive as certificações. Por isso a Rede Maniva está propondo a criação do SPG, para atuar na própria rede! Isso mostra o grau de maturidade da rede.

A rede está conseguindo articular novos produtores orgânicos?

Sim. Um novo grupo de agricultores entrou recentemente para a rede. E na reunião em que esses agricultores deram entrada na rede, já veio outro agricultor, de outra localidade, dizendo que tinha uma produção agroecológica e que também queria a declaração de orgânico. Quando a rede surgiu, tinham dois grupos na região de Manaus que produziam orgânicos, agora existem mais quatro grupos interessados em obter a declaração…

Existe um trabalho junto ao governo para implementar uma política local de orgânicos? 

Participamos recentemente de uma audiência pública que discutiu o projeto de lei para a política estadual de agroecologia e produção orgânica, então esperamos que haja recursos públicos para o setor nos próximos anos. Mas esses produtores estão tão fortalecidos a ponto de ir fazer reunião com o Secretário de Agricultura do Amazonas para cobrar uma participação, cobrar a destinação de mais técnicos para apoiar a agricultura agroecológica, então eles é que estão pressionando o governo! Além disso, uma série de pessoas que fazem parte da Rede Maniva também fazem parte da Comissão de Produção Orgânica Estadual – CPORG. E dentro dessa comissão, junto com Assembleia Legislativa, eles estão tentando produzir uma política pública, a política estadual de agroecologia e produção orgânica já está tramitando na Assembleia.

Qual é o papel do INPA dentro da Rede Maniva? 

Além de haver pesquisadores do Laboratório de Nutrição do Solo e Agroecologia – que é onde eu trabalho no INPA – envolvidos nas atividades da rede, também tem uma equipe que é da coordenação de tecnologia social do INPA que participa da rede. Em especial, tem uma pesquisadora nutricionista que faz parte tanto da Rede Maniva como de uma outra rede – e que é internacional, de Segurança Alimentar e Nutricional. Então os pesquisadores do INPA atuam fazendo oficinas ou contribuindo na discussão da política pública, fazendo novas articulações e inserindo a Rede Maniva em outros contextos, de modo que não fique restrito apenas à produção rural.

O fato da Rede Maniva não se restringir aos produtores rurais e contar com uma série de instituições, científicas e governamentais, fortalece o trabalho da própria rede? 

Com certeza, isso ganha força. Um pesquisador da EMBRAPA, por exemplo, que participa da rede, ele é instituído para lidar com a agroecologia, ou seja, tem liberação do diretor da instituição para participar da reunião – e isso faz toda diferença! Outro dia foi bem interessante também. Uma pessoa que faz parte da Rede Maniva e que é da Comissão Nacional de Abastecimento – CONAB foi conosco até uma comunidade de produtores entregar a certificação. Essa pessoa foi conosco, junto com o pessoal do Ministério da Agricultura, até a comunidade e disse aos produtores que eles poderiam vender aquela produção para a CONAB, através do Programa de Aquisição de Alimentos – PAA. Isso é muito estimulante. Dizer aos agricultores pessoalmente que a CONAB vai comprar a produção deles é um incentivo e tanto!

A produção agrícola local consegue suprir a demanda da cidade por alimentos?

Não, a produção agrícola no Amazonas não é grande suficiente para abastecer a cidade em geral, não só dos orgânicos. Quem mora na cidade sabe a quantidade de alimentos que vem de fora. Inclusive a banana, que é algo que dá pra produzir no Amazonas. Mas a gente sabe que a banana está vindo de Pernambuco para poder atender a demanda, vindo de Roraima, Rondônia, Acre. Dizem que há oito anos, Manaus importava até coentro e cebolinha, que é muito usado na culinária em toda Amazônia. Manaus tinha que importar de Belém para atender à demanda…

Isso acontece porque Manaus é muito populosa ou porque não existe uma agricultura organizada? 

De um lado, falta incentivo de políticas públicas para o setor. A produção primária é muito negligenciada no estado, não existe um plano de ação para agricultura, um documento básico em relação ao zoneamento para a prática agrícola, não existe sequer informações básicas a respeito da produção agrícola no Amazonas. Do outro, sabemos que existem muitos produtores nos arredores, mas há inúmeras dificuldades associadas à produção. Tudo é longe, precisa de combustível, de barco e para organizar isso é necessário uma política pública. É preciso incentivar a produção. O estado deveria suprir essas necessidades. Por essa razão é importante a atuação em rede. No caso estamos falando de uma rede de agroecologia, a Rede Maniva, mas se houvesse um trabalho de equipe de rede da agropecuária de um modo geral para pressionar o governo já seria bem interessante.

A atuação da rede entre os produtores está restrita à cidade de Manaus e entorno ou também agrega produtores do interior? 

A atuação da rede é mais forte na cidade de Manaus e entorno, mas existem alguns produtores do interior que participam da rede. Uma das associações que fazem parte da rede, por exemplo, é de Carauari, um município depois de Tefé, lá pro Rio Juruá. Os índios Saterê Maué, de Maués, também participam da rede. Eles produzem guaraná e são certificados, vendem guaraná para França. Mas a atuação da rede fica concentrada em Manaus, sem dúvida.

A Rede Maniva estimula a produção de alimentos com sementes industrializadas ou tem trabalhado a recuperação dos alimentos nativos e das sementes crioulas?

A agricultura orgânica aqui em Manaus produz alface, abobrinha, berinjela, cenoura, tomate, que são produzidos com sementes industrializadas. Mas nós temos também experiências com produtos nativos. Aqui em Manaus tem um professor chamado Valdely Kinupp que escreveu um livro referência sobre as plantas alimentícias não-convencionais. O livro circula bastante inclusive entre os agricultores. Então o produtor até conhece essas plantas, mas ainda não tem um mercado consolidado para absorver esse tipo de alimento. Na feira dá para encontrar esses produtos não convencionais amazônicos, na feira tem vinagreira, espinafre da Amazônia, bertalha, cariru. Só que essas plantas são mais difíceis de vender. E querendo ou não, o produtor se volta para o mercado, para o que vende. Mas existe sim uma discussão dentro da Rede Maniva de resgate de sementes tradicionais, de alimentos não convencionais, alimentos regionais. Esse é um dos objetivos da rede, estimular a produção regional de alimentos.

E como é feito o estímulo de produtos regionais então? 

Agora no Programa de Aquisição de Alimentos – PAA da CONAB, por exemplo, os melhores preços de compra são para os alimentos não convencionais. Para esses alimentos o valor do quilo é muito alto, então está valendo muito a pena para os produtores plantar esses alimentos não convencionais. E eu particularmente não acho que isso seja uma política da CONAB, para estimular esse tipo de produção. É mais uma questão do mercado mesmo, não tem muita oferta desses alimentos, então acaba tendo um preço mais alto. Só que tem que ter mais diversidade, porque não tem muita demanda ainda. E também o consumidor não conhece esses alimentos, tem que ter mais divulgação. Os produtores conhecem mas a população em geral não conhece… Uma ideia inovadora é divulgar através das feiras gastronômicas, por exemplo, que apresentam esses alimentos à população.

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