Alimentação vegana

A Sociedade Vegetariana Brasileira - SVB é uma organização pioneira que defende a alimentação vegana e o direito dos animais no país. Conversamos com o presidente, Ricardo Laurino, para saber como é a atuação da SVB no Brasil e qual é a relação entre alimentação, cultura e política.

Pra começar Ricardo, fala um pouco sobre como surgiu a Sociedade Vegetariana Brasileira?

A ideia da SVB começou mais ou menos uns 17 anos atrás. Marly Winckler, uma socióloga que sempre participava de eventos vegetarianos pelo mundo (naquela época se falava pouco em veganismo, apesar de já existir), ela esteve no 35° Congresso Internacional Vegetariano, ficou sabendo que houve um problema com o país sede que abrigaria o congresso seguinte e se mobilizou para saber se o Brasil poderia receber o evento. E foi informada que precisaria ser por meio de uma ONG, e que fosse uma ONG ligada à União Internacional Vegetariana, que é uma das organizações vegetarianas mais antigas do mundo, tem mais de cem anos. Então, com muito esforço, Marly acabou conseguindo reunir um grupo de pessoas e fundar a SVB, que não tinha só esse propósito, mas digamos que esse foi o estímulo principal para ser criada.

E todo esse esforço deu certo. Em 2004, fizemos o 1° Congresso Internacional Vegetariano aqui no Brasil. Foi a primeira vez que um evento vegetariano de grandes proporções aconteceu no país. O congresso foi realizado no Costão do Santinho, em Florianópolis, e toda alimentação servida no evento foi feita apenas com produtos vegetais, porque a SVB surgiu promovendo o vegetarianismo sem nada de origem animal, o que depois se acostumou chamar de alimentação vegana. Então a primeira sede da SVB surgiu em Florianópolis. Somente em 2015, a sede foi transferida para São Paulo.

Como a SVB funciona? O que ela faz?

A SVB tem uma equipe bem pequena. E é curioso, porque nós, há algum tempo, antes mesmo de eu ser presidente, quando temos reunião de cúpula, sempre nos perguntamos “como tão poucas pessoas conseguem desenvolver um trabalho tão amplo e tão abrangente como o que é feito na SVB?” E o que nós fazemos? Nós trabalhamos a questão política pela defesa do vegetarianismo. E quando eu falo vegetarianismo, é o “estrito”, que chamam hoje de veganismo. Para isso, nós trabalhamos diretamente com o pessoal da alta sociedade, com escolas da periferia, a gente lida com a parte nutricional, com a parte de ativismo positivo, que é aquele ativismo de encorajar as pessoas (não é um ativismo combativo, por exemplo). Então nós fazemos campanhas para que as pessoas tenham consciência sobre essa questão, atuamos encorajando as pessoas para darem seus primeiros passos no vegetarianismo.

Que ações são essas?

Nós temos, por exemplo, a campanha “segunda sem carne”, que atende hoje, aproximadamente, quatro milhões de crianças em todo estado de São Paulo, na capital e em outras cem cidades do estado. É uma campanha onde as escolas públicas servem uma vez por semana uma merenda vegetariana. Com isso, a gente atinge desde os bairros centrais até os bairros mais periféricos. Essa campanha também está em alguns restaurantes do Bom Prato, que cobram R$1 real por refeição e atende milhares de pessoas carentes.

A “segunda sem carne” fez com que as empresas também começassem a perceber que poderia ser algo bem interessante servir refeições vegetarianas. A Natura, por exemplo, começou a implementar a refeição vegetariana uma vez por semana para mais de 5000 funcionários, a Mãe Terra também implantou, e outras empresas estão fazendo isso. E nós também atuamos diretamente com a indústria, certificando com o “selo vegano”, que é uma avaliação para ver se determinado produto é feito inteiramente de insumos de origem vegetal e se não foi testado em animais. Até agora, já são mais de 1000 produtos certificados.

Essa certificação é específica para algum nicho de mercado?

Não, essa certificação atende desde as pequenas empresas até as gigantes nacionais e multinacionais. Ela é muito abrangente, muito inclusiva e faz com que os produtos veganos sejam vistos de uma forma ampla para todo tipo de consumidor. Mais ou menos nessa linha, nós temos também a campanha “opção vegana”, que é um trabalho que nós fazemos diretamente com estabelecimentos tradicionais que atendem um público diversificado. Nós fazemos um trabalho para que esses estabelecimentos tenham opções veganas em seus cardápios, uma forma de incluir esse tipo de alimentação para que veganos e não-veganos possam interagir no mesmo local. Grupos grandes aderiram à campanha, a Backed Potatoes já tem opção vegana em quase todas as suas lojas, a Pizza Prime, que tem 21 lojas pelo Brasil, o Brasileirinhos, que tem um pouco mais de 50 lojas, enfim, uma série de estabelecimentos.

O trabalho da SVB é sempre em cima da alimentação vegetariana?

A maior parte. Nos shows do Paul McCartney, que aconteceu no início de 2019 aqui no Brasil, por exemplo, nós promovemos, a convite dele, a campanha “segunda sem carne” para todo público. Então nós entregamos nos três shows que ele deu, mais de oitenta mil materiais explicativos para o público. Imagina o impacto que isso gera? Então tem muita coisa que a SVB faz, e são cerca de 50 grupos espalhados pelo Brasil que promovem localmente os trabalhos que a SVB realiza.

Esses exemplos que eu dei são dos trabalhos diretos, mas tem outros que acontecem por estímulo, vamos dizer assim. Nós temos muito material disponível na nossa rede e sabemos de muitos locais que aderem às nossas campanhas mas que não entram em contato conosco, apenas utilizam o material que é disponibilizado gratuitamente na Internet. E tem também os eventos que a gente realiza. Nós temos um grupo de nutricionistas e nutrólogos e preparamos profissionais de saúde para atenderem pacientes vegetarianos, por exemplo. Até agora, já trabalhamos com cerca de 1.500 profissionais da rede pública de São Paulo, fizemos dois treinamentos, todos gratuitos.

Qual é a razão para trabalhar com os profissionais de saúde?

Muitos pacientes entram no consultório e falam: “eu sou vegetariano, não como nada de origem animal” e aí o profissional de saúde fala: “ah, você tem que voltar a comer carne”. Esses profissionais falam isso não porque é realmente necessário comer carne, mas porque eles não têm informação suficiente para dar ao paciente sobre alimentação vegetariana. Então vale aquilo que ele conhece, aquilo que ele estudou, e eles não estudam alimentação vegetariana em suas bases. Por isso fazemos um trabalho também para lidar com isso. Lembrando que quando eu falo alimentação vegetariana, estou falando daquele vegetarianismo estrito, que se acostumou dizer “alimentação vegana”.

O que foi preciso fazer para implementar a campanha “segunda sem carne” nas escolas de São Paulo?

Nós trabalhamos com programas junto às secretarias de educação e do meio ambiente, às vezes trabalhamos as duas em conjunto, às vezes separadas.

Mas não precisou fazer um projeto de lei, por exemplo? A adesão à campanha foi espontânea?

Não precisou de projeto de lei. A adesão foi espontânea sim. Na verdade, a gente fez provocação com alguns agentes políticos que estão envolvidos. Então são nomes que podemos agradecer! Um dos primeiros a abraçar a campanha foi Eduardo Jorge, que era da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo na época. Ele gostou da ideia, abraçou e levou para a rede municipal. Depois, o Alexandre Schneider, que era secretário municipal da educação, levou para o estado. Um entusiasta que sempre apoiou muito foi o Roberto Trípoli. Então digamos que esse foi um trio bem bacana que trabalhou bastante, não impondo, mas mostrando os benefícios que isso poderia trazer para os alunos em relação ao impacto ambiental e também na questão da nutrição. E foi de encontro com o que o Ministério da Saúde brasileiro preconiza, que é um aumento no consumo de frutas, verduras e legumes, ou seja no consumo de produtos vegetais. Porque no Brasil, está tendo uma queda no consumo per capita desses produtos. Então é um conjunto de coisas que acabou se conectando e sendo um ponto positivo para que isso fosse implementado e fosse um sucesso!

Como surgiu a campanha “segunda sem carne”?

A “segunda sem carne” é o maior programa de estímulo ao consumo de produtos de origem vegetal que existe nesse formato no mundo. O programa surgiu nos Estados Unidos em 2003 e hoje acontece em mais de 40 países. Então é uma campanha mundial e nós da SVB trouxemos para o Brasil em 2009. Mas o interessante é que a “segunda sem carne” brasileira já é considerada a campanha de maior abrangência no mundo. Lembrando que a “segunda sem carne” é vegana, não tem nada de origem animal, embora o nome seja “sem carne”, as refeições não tem nada de origem animal.

Você comentou que a SVB tem um programa que prepara os profissionais de saúde para tratar pacientes vegetarianos… Por que a alimentação vegetariana ainda hoje é tão contestada?

Porque é recente! Apesar da gente conhecer pessoas lá do passado que eram vegetarianos, de modo geral, esse movimento da forma como estamos vendo agora é muito novo. Nas décadas de 60 e 70, os estudos sobre alimentação vegetariana, por exemplo, eram poucos, e serviam apenas para identificar como a alimentação vegetariana poderia interferir negativamente na saúde das pessoas. Ou seja, o foco era ver o que ela trazia de malefício. Só depois, na década de 90 é que os estudos começaram a ter outro viés, porque aqueles primeiros estudos feitos nas décadas de 60 e 70, embora fossem para mostrar os malefícios, começaram a apontar que havia benefícios na alimentação vegetariana! Então na década de 90, as pesquisas começaram a mostrar quais eram esses benefícios, mas ainda assim, contando com um número muito reduzido de pessoas vegetarianas para realizar a pesquisa.

E os cursos de nutrição, por exemplo, não possuem disciplinas voltadas para alimentação vegetariana?

Olha, eu não gosto muito de ser um crítico do meio acadêmico por saber que para transformar uma grade, para que uma disciplina nova entre, existe um tempo de maturação e eu acho que agora que esse tempo está chegando. Agora vai ser natural isso acontecer. A SVB inclusive lançou a primeira pós graduação de nutrição vegetariana no Brasil, a primeira foi em Recife e agora foi lançado em São Paulo também, logo vai ser lançado no Rio de Janeiro. Mas já vimos que tem outros cursos desse tipo em outros locais. Então não dá para criticar porque é algo bem recente.

Mas existem culturas vegetarianas milenares! O que me leva a pensar na questão da cultura alimentar… Ou seja, é possível desenvolver uma cultura alimentar vegetariana onde não existe essa tradição?

Quando eu digo recente é esse movimento vegetariano do modo como estamos vendo hoje. E o movimento ganhou força quando foi lançado o livro “Libertação Animal”, de Peter Singer, em 1975. Esse livro foi um divisor de águas. Então é possível que você encontre pessoas que eram vegetarianas no passado e que citavam o vegetarianismo como uma cultura em relação aos animais também. Mas vegetarianismo como um movimento, antigamente era pequeno e era mais ligado à questão de saúde das pessoas. A parte que questiona a relação entre os seres humanos e os animais começou nos anos 1970. Até então não se falava em direito dos animais. Então eu acho que isso foi sendo construído e em 1975, quando Peter Singer escreve esse livro, ele faz com que aquela sensação (eu digo isso por mim, mas eu já vi muita gente com essa sensação também), aquela sensação que é muito interna nossa de querer ser justo, de querer ser compassivo, de respeitar os animais. Essa sensação ganha uma roupagem lógica, uma roupagem filosófica, uma roupagem clara de uma explicação fácil de você defender e você argumentar.

Então aí eu acho que o movimento ganha muita força e veio em uma época ótima, porque se você pensar, foi uma época em que os meios de comunicação estavam mais democráticos e permitiam às pessoas se informarem e saberem o que acontece com os animais, saberem como as coisas acontecem no campo, tudo aquilo que o urbanismo, com a população vindo morar toda na cidade, se distanciou da criação dos animais e mal se perguntava sobre seus direitos. Então isso são questões muito relevantes para a gente levar em consideração. Elas não são únicas, mas elas são bem relevantes.

É interessante você citar um livro como divisor de águas. Mostra como uma ideia pode ser tão potente a ponto de promover grandes transformações…

Com certeza! Esse livro me fez virar vegano também! Antes eu não era vegetariano estrito e parei com tudo de origem animal depois de ler o livro. Me tornei vegetariano muitos anos atrás, em 1990: eu estava comendo um bife enquanto assistia televisão e vi uma boiada na TV, naquele momento eu não consegui mais cortar o bife, parei ali mesmo. Mas eu não achava que tinha problema em consumir ovos, leite e derivados. Não conhecia os problemas relacionados a este consumo, tinha uma visão diferente dessa relação do ser humano com o animal. Eu até sentia aquilo, mas achava que não tinha problema. E o livro me mostrou de uma forma mais abrangente como encarar essa questão. Li o livro em 2003. Depois que terminei, fechei e falei: “caramba, eu não posso mais continuar tomando leite e comendo ovos”. Zoológico, essas coisas eu já não ia mesmo, então o livro foi o empurrão final.

Você acha que é viável para a maioria da população brasileira tornar-se vegetariana?

Totalmente! Eu acho que é algo muito natural de acontecer, eu estranharia se não acontecesse.

Por quê?

Porque ninguém acorda (e quando eu digo ninguém, eu falo da grande maioria) e fala “ah, hoje eu vou matar alguém” (apesar de ter gente que acorda e pensa isso, mas de forma geral, não). E com o alimento é a mesma coisa. Ninguém fala “ah, hoje eu quero comer carne porque eu quero que o bicho morra para eu poder comê-lo”, ou então “eu quero comer ovo porque eu quero explorar o animal”. Não é assim! As pessoas comem carne porque é um hábito que desencoraja a gente a refletir sobre isso. É tão rotineiro que evita com que façamos um questionamento muito normal, e que quase todo mundo já se fez, mas que logo é interrompido, por isso é difícil de atender a esse questionamento, que é: “por que eu mato e exploro os animais para me alimentar?”.

Então é mais fácil a gente fazer e atender esse questionamento se tivermos a oportunidade de começar a mudar o hábito. E o movimento vegano está fazendo isso, o movimento está dando a oportunidade para que as pessoas tenham coragem de questionar e verem que é possível mudar o hábito de comer carne sem mudar o prazer de comer. É possível ter os produtos à mão e não fazer tanto esforço para ter uma alimentação vegana. É possível não se sentir excluído e diferente dos outros por causa da alimentação. Então eu acho muito estranho se não chegarmos a uma população vegetariana em sua grande maioria como uma coisa natural, uma coisa normal da sociedade. Acho muito estranho a gente não imaginar que é o que todo mundo escolheria, se pudesse escolher. É que no fundo a gente não tem escolha. A grande maioria das pessoas interrompe o questionamento antes que ele se transforme em uma ação, e se você interrompe o questionamento dessa maneira, você não tem a força da escolha.

Mas comer carne não é apenas um hábito, também tem a ver com uma cultura alimentar e que é muito antiga…

Sim, mas o especial da cultura do ser humano é que ela se modifica. A cultura serve justamente para questionar sua realidade, para entender tudo o que ela representa e através desse questionamento, dessa nova análise, começar a criar novos hábitos. O próprio cozimento dos alimentos foi uma mudança de cultura, trouxe uma nova perspectiva para o ser humano. É exatamente isso que eu defendo: que nada é mais forte na cultura do ser humano do que a mudança. Então se agarrar à cultura como algo estático é o grande equívoco que eu acredito que as pessoas têm quando falam em cultura alimentar, por exemplo. E aí eu estendo isso para a vaquejada, o rodeio… eu posso dizer um monte de outras práticas culturais que a gente tinha e que não foram suficientemente fortes para serem mantidas até hoje – e provavelmente nenhuma será, considerando que a mudança faz parte da história do ser humano. Modificar sua realidade, modificar seus hábitos de acordo com novas visões, de acordo com questionamentos que são feitos ao longo do tempo faz parte do que é ser humano.

E com relação à política agrícola e pecuária do Brasil? Nós somos um país com uma bancada ruralista muito forte, temos uma produção de carne elevada, assim como a soja, que é usada para alimentar os animais… é possível barrar esse tipo de política?

Eu acho que essa política não vai ser barrada, ela vai ser transformada! O movimento vegano tem duas vertentes: existe uma parte do movimento que é um pouco menor, mas ela é bem barulhenta e que luta contra eles, contra essa política. E existe um outro movimento que percebeu que a forma de modificar essa política é estar junto a eles e convidá-los a uma nova forma de produção, uma nova forma de exploração do mercado financeiro, de recursos e tudo mais. E é o que está começando a acontecer: se você olhar as grandes empresas que antes eram grandes críticas do movimento, hoje estão começando a entrar nesse barco e estão virando neutras.

Por exemplo, quando uma empresa como a Tyson Foods, ainda que seja nos Estados Unidos, mas esse exemplo serve para o Brasil, porque eu tenho certeza que em breve as empresas brasileiras vão entrar nessa. A Tyson Foods é a segunda maior produtora de carne dos Estados Unidos, a maior concorrente da brasileira JBS nos Estados Unidos. A Tyson Foods está investindo na Beyond Meat. A Beyond Meat é uma empresa que está desenvolvendo hambúrgueres e outros tipos de carne, nuggets e tal, todos veganos. E o que significa isso? “Ah, significa que eles querem entrar nisso e ganhar dinheiro também?” Sim, mas significa muito mais. Significa que eles não vão precisar combater o veganismo porque eles começam a entrar, e a pior coisa que tem em um movimento é você ter inimigos. A melhor coisa para um movimento é você trazer aqueles que estão de fora para o seu movimento porque aí as resistências diminuem e eles acabam ajudando, muitas vezes sem perceber que estão ajudando.

Pensando em política brasileira, pensando na bancada ruralista, eu vejo eles como pessoas, como grupos que cresceram assim, muito deles herdaram tudo que tem e é difícil para eles enxergarem uma nova forma de fazer política. E o nosso movimento tem como missão e obrigação mostrar essa nova forma, convidá-los a surfarem essa nova onda e isso naturalmente vai fazer com que a resistência em relação ao movimento diminua porque eles acabam também fazendo parte do próprio movimento.

A SVB tem alguma atuação dentro do Congresso, consegue pressionar a política nacional nos temas relacionados ao movimento?

Não, é tudo muito pontual. E como eu disse, nós temos contatos que são de pessoas influentes e que acabam contribuindo nesse processo com algumas iniciativas, por exemplo, a “segunda sem carne” e os treinamentos com os profissionais de saúde. Então são oportunidades pontuais em que a SVB mostra os benefícios do veganismo. Não ficamos no combate, a não ser, é claro, quando nós somos provocados e percebemos que podemos fazer algum tipo de ação para reduzir o impacto dessa provocação. Mas o nosso trabalho principal é conseguir com que as pessoas reduzam a resistência em relação ao nosso trabalho.

Eu vi uma pesquisa sobre a percepção do brasileiro sobre o vegetarianismo, acho que foi encomendada pela SVB…

Sim, nós encomendamos a pesquisa, ela foi feita pelo Ibope, em 2018. A pergunta feita para as pessoas era: “você é vegetariano?”. E as opções de resposta eram: “concordo totalmente” ou “concordo parcialmente”. [segundo a pesquisa Ibope Inteligência, de 2018, 14% dos brasileiros com mais de 16 anos – cerca de 22 milhões de pessoas – concordavam parcial (6%) ou totalmente (8%) com a afirmação “sou vegetariano”]

Como você vê as pessoas que se auto denominam vegetarianas e comem peixe, por exemplo?

Essa é uma auto-intitulação confusa, por conta da forma em que muitas vezes se usa o termo vegetariano. Mas eu entendo que uma pessoa que só come peixe, por exemplo, está muito mais próxima para eu conversar e trazê-la para dar novos passos em direção ao vegetarianismo do que aquela que come as outras carnes. A SVB lida com isso da seguinte forma: “não importa em que degrau da escada do vegetarianismo essa pessoa está, vamos fazer ela subir mais um”. E quando ela está nesse patamar, de comer apenas peixe, ela está muito mais perto, ela mesma já se auto intitula do nosso lado do que do outro lado. Então não sou eu que vou falar: “não, você não pode dizer que é vegetariano” (apesar de saber que é um equívoco). Mas eu vou falar: “ótimo que você está nisso, vamos mais, agora vamos tirar o peixe, agora vamos tirar o queijo, vamos tirar o ovo!”. E dá muito certo isso, porque é uma forma inclusiva de trazer as pessoas para aquilo que a gente acha que é o melhor para elas e para o movimento em si.

Para o movimento, é mais importante tirar todo e qualquer alimento de origem animal da alimentação do indivíduo ou também vale apenas diminuir esse consumo?

O objetivo final é realmente esse, tirar os alimentos de origem animal. Se a pessoa já deu alguns passos em direção a isso, ótimo, significa que ela pode chegar lá, mas não é nosso objetivo apenas diminuir o consumo desses alimentos. O mais importante mesmo é retirá-los totalmente da alimentação. Então eu prefiro dizer que é como um filho, que tira sempre nota 2 e vem com uma nota 4, e aí eu falo: “que legal, você andou até aqui, então significa que você pode se desenvolver ainda mais! Vamos chegar no 6, vamos chegar no 8. Vamos dar um pulo? Vamos chegar no 10?”. E eu vejo que esse caminhar é um processo que está impulsionando o próprio movimento. Porque se você perguntar para qualquer dono de estabelecimento que oferece produtos veganos, ele vai falar que a grande maioria das pessoas que consomem produtos veganos não é vegana!

Interessante!

Esses estabelecimentos acabam impulsionando o vegetarianismo porque o mercado percebeu como uma oportunidade de crescimento. Então o número de opções veganas estão aumentando e poderão ser consumidas por veganos e não veganos. Isso facilita o acesso ao vegetarianismo, pois a falta de opção é um dos entraves para as pessoas adotarem esse tipo de alimentação, elas ficam com medo de virarem veganas por acreditarem que não têm o que comer. É um círculo virtuoso, por isso nossa visão não é ficar debatendo se a pessoa usa o termo certo ou errado, mas se ela está no caminho e se nós podemos incentivá-la a dar mais um passo ou um salto direto.

É tudo pela libertação animal ou tem a ver com a questão da saúde e da sustentabilidade também?

Tudo se mistura! O movimento mesmo é misturado. Podemos dizer assim: a essência do veganismo é pelos animais. Mas sabemos que ser vegano gera um impacto ambiental muito menor do que quando se come carne ou se usa produtos de origem animal. O mesmo vale para saúde. Então, como é que a gente vai dizer que a saúde não é nosso objetivo? É também! Mas o veganismo como movimento surge com uma bandeira que representa o direito dos animais. Então você vai encontrar pessoas que chegam ao veganismo pela saúde, e tudo bem, isso é bem interessante, mas ao mesmo tempo, é difícil, muita gente no movimento não entende.

Por quê?

É assim… A pessoa fala, por exemplo: “eu vou continuar comendo carne, mas pouco, só vou diminuir por causa da saúde, pois eu não acho errado comer animais”. Essa pessoa ainda está travando aquele questionamento. Aí a pessoa começa a se sentir bem, começa a tirar os produtos de origem animal e está se sentindo melhor, está tendo um ótimo resultado para a saúde. Então aquele produto que poderia ser alvo de um questionamento, uma forma dela dizer “poxa, eu tô fazendo coisa errada!”, esse produto já não está mais no prato dela. Nesse ponto, a resistência em ser tornar vegano cai. O questionamento fica muito mais fluido e pode ser trabalhado na mente da pessoa. Ela já pode pensar: “Por que eu vou comer animais, coitados?! Isso é uma injustiça com eles, eles merecem o direito à vida!”. Mas ela só começa a pensar dessa forma porque já deixou de comer carne, aquilo já não faz mais parte da vida dela, entende?

Já fizeram inclusive uma pesquisa muito interessante sobre isso: pegaram dois grupos de pessoas que comiam carne. E colocaram os dois grupos para assistirem cenas de violência contra os animais em abatedouros, granjas e tudo mais. Em um grupo, eles deram petiscos de carne para as pessoas comerem e no outro, petiscos de nozes. E perguntaram se aquelas imagens tinha algum impacto em relação aos direitos dos animais e se eles achavam aquilo violento, cruel, injusto. A maioria das pessoas que disseram que aquilo era errado e que não era interessante para a sociedade era do grupo que comeu nozes, porque naquele momento eles não estavam comendo carne. Era muito difícil para quem estava comendo carne falar que aquilo era cruel!

Então o que acontece? Quando se vai pela saúde, aquela resistência de se questionar e perceber que estava fazendo algo que era violento para você mesmo, perceber que você também não concorda com a violência contra os animais, isso já não vai te atrapalhar porque você não tem aquilo no prato. É por isso que é muito mais fácil uma pessoa dizer aqui no Brasil que é contra a tourada, por exemplo. É mais fácil porque ela não está envolvida com a tourada. Já com o churrasco é diferente! Justamente porque ainda tem muita gente envolvida com o churrasco…

Já é amplamente difundido que nós podemos viver sem proteína animal… mas e a questão da vitamina B12, por exemplo, como fica?

Veja, de fato, a gente não vive sem proteína, mas além da proteína animal, existe proteína nos vegetais também. Então é um equívoco pensar que só tem proteína na carne ou então nos ovos e nos derivados do leite. Tem proteína no feijão, na lentilha, no grão de bico… Da parte vegetal, as leguminosas são o grupo alimentar que mais dão proteína para o nosso organismo. Então é possível ingerir todos os aminoácidos que compõe a proteína no reino vegetal, sobre isso não há questionamento. É realmente um grande mito essa questão da proteína animal.

Sobre a vitamina B12, é uma vitamina que é encontrada sim nos animais, ela não é de origem animal, ela surge nas bactérias, mas no processo de higienização que tivemos na sociedade, nós perdemos a capacidade de buscar a B12 nos produtos de origem vegetal. E na carne ela se mantém. Mas só em algumas carnes se tem uma fonte um pouco mais segura de B12. Por que um pouco mais segura? Os estudos mostram que quase metade da população brasileira apresenta algum nível de B12 abaixo do que é considerado normal. Ou seja, a B12 é uma vitamina complicada, para veganos ainda mais. Mas qual é a solução? A mesma que a gente tem com o iodo no sal! Nós consumimos muito pouco iodo. O que a gente faz?

Acrescenta no sal…

Enriquece no sal. Então o que foi feito durante muito tempo para evitar o problema de anemia nas crianças, jovens e adultos? Enriqueceram as farinhas. Quase todas as farinhas são enriquecidas com ferro, ácido fólico, exatamente para evitar um nível baixo de ferro no sangue. Por isso A SVB vem trabalhando com o ambiente político para fazer com que os produtos também comecem a serem enriquecidos com B12. Essa seria uma grande forma pra não ter problema de B12 na população, inclusive, para quem come carne: 40% da população sofre com baixo índice de B12, então é um nível muito grande de pessoas com essa deficiência alimentar.

Mas os veganos necessariamente precisam fazer suplementação de B12?

Sim! Ou comer produtos enriquecidas com B12 que já estão sendo oferecidos no mercado. Apesar de ainda serem poucos em relação aos produtos tradicionais que são enriquecidos com ferro e ácido fólico, os produtos com B12 já existem. E também dá para suplementar com cápsulas.

Pra terminar, o Guia Brasileiro para a População Brasileira, de 2014, recomenda uma maior ingestão de frutas, verduras e legumes, e pouco alimento de origem animal. Segundo os idealizadores do guia, essas recomendações surgiram como uma resposta ao movimento vegetariano. Como a SVB vê essas recomendações?

Eu não sei como foi o procedimento exato em relação ao Guia, mas os nutricionistas e nutrólogos da SVB estão em constante contato com agentes políticos, às vezes, em embates, discutindo coisas que não concordam, outras tratando questões que concordam. Então o diálogo está crescendo, está aumentando e vai ser progressivo, porque nós percebemos que o movimento está crescendo. E cada vez mais, vai ser uma preocupação, não como uma forma negativa, mas como um iten a ser avaliado. Cada vez mais, vai estar na pauta dessas instituições, de associações, porque não dá mais para fechar os olhos para o direito dos animais como durante muito tempo se fechou. Enfim, essa conversa é contínua!♦

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