Das Ansiedades Sobre a Alimentação

Com a industrialização, a alimentação tornou-se objeto de decisões individuais e cotidianas, gerando certa ansiedade. “O que vamos comer hoje?” nos perguntamos o tempo todo. Vários critérios definem nossas escolhas. Mas até que ponto o poder de escolha exerce um papel definitivo sobre nossa saúde e o meio ambiente?

Existe uma ansiedade muito grande hoje em dia em relação ao que devemos comer. Nossas práticas e representações alimentares já não seguem mais apenas regras e controles sociais tradicionais como no passado. Com a industrialização, a alimentação tornou-se objeto de decisões individuais e cotidianas. “O que vamos comer hoje?” nos perguntamos o tempo todo.

E a ansiedade surge porque nossas escolhas não seguem um critério único e coerente. Adotamos diversas estratégias para nos alimentar de acordo com nossa percepção sobre como deveríamos nos alimentar! O consumo politizado dos alimentos, as questões de saúde e estética, as restrições dietéticas, aspectos de identidade, tudo isso vai formando um mosaico de critérios que compõem nossas escolhas.

Somos então provocados diariamente com nossas escolhas alimentares. Mas até que ponto o poder de escolha exerce um papel definitivo sobre nossa saúde e o meio ambiente?

A escolha é sem dúvida o primeiro passo para definir o que ingerimos e o que deixamos de ingerir. Ela faz toda diferença quando preferimos um alimento fresco ao alimento ultra processado. Quando optamos por consumir mais verduras e legumes e menos carnes e embutidos. Ou quando optamos por alimentos produzidos sem agrotóxicos aos invés de alimentos quimicados. O corpo sente e a saúde agradece.

O poder de escolha, no entanto, sobrecarrega o consumidor com responsabilidades que deveriam ser de outras instâncias, em especial, no que se refere aos problemas ambientais. O nosso poder de escolha esbarra em um limite que dificilmente poderá ser rompido se não houver uma mobilização em massa da sociedade para pressionar políticas e governos a adotarem regras mais sustentáveis, tanto do ponto de vista social como ecológico.

Não faz sentido consumir quinoa do Peru a um preço elevado porque é uma excelente fonte de nutrientes quando um alimento tradicional do nosso país como a farinha de milho é praticamente toda transgênica. Não é o aumento no número de consumidores brasileiros de orgânicos que vai transformar a nossa produção de alimentos como se espera de mercados neoliberais. Nem o boicote aos produtos ultra processados que vai falir a indústria alimentícia.

É claro que todas essas ações tendem a fortalecer um movimento mais amplo ligado à democratização de uma alimentação justa e saudável. Mas essencialmente, são as políticas alimentares – nacionais e internacionais — que definem como nos alimentamos para além das nossas escolhas.

Manter uma horta caseira como um ato de resistência – como propôs o presidente do Slow Food internacional recentemente – pode até ter algum efeito sobre a percepção da questão alimentar como ela se apresenta hoje no mundo, a começar pela consciência alimentar e ambiental que essas ações geram e também pelo acesso gratuito aos alimentos. O que é bem interessante, vale sempre ressaltar!

Mas não rompe, por exemplo, com o sistema de patentes de mudas e sementes em que opera o comércio internacional, nem com as grandes cadeias de supermercados que definem o preço de muitos alimentos a nível global. Menos ainda com o poder das grandes corporações sobre a composição dos alimentos processados por elas.

A percepção individual sobre a questão alimentar e ambiental é super importante e se potencializa em rede, mas são as políticas públicas nacionais e os acordos internacionais que podem levar, de fato, a novas práticas agrícolas e alimentares na escala local.

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