Cogumelos Yanomami e a comida da floresta

Os Yanomami consomem 15 espécies de cogumelos, encontradas em seus roçados e na floresta. E em 2016, teve sua comercialização iniciada a partir de um projeto desenvolvido pela Hutukara Associação Yanomami em parceria com Instituto Socioambiental – ISA. Quem coordena o projeto no ISA é o antropólogo Moreno Saraiva Martins. Conversamos com ele sobre a relação dos Yanomami com os cogumelos, as comidas da floresta e a importância do projeto para o fortalecimento da cultura local.

Essa entrevista sobre os cogumelos Yanomami era para ter sido publicada um ano atrás. Porém, diante da notícia do PL 191/2020, que pretende legalizar práticas de mineração em Terras Indígenas, o momento tornou-se delicado. Os Yanomami são profundamente afetados pelo garimpo ilegal e alguns dados da entrevista poderiam ser usados de má-fé, o que me fez adiar a divulgação. Logo depois, eclodiu a pandemia de COVID-19 no Brasil. Com isso, me afastei da pesquisa, passando a me dedicar integralmente ao ativismo nas redes pelo acesso às políticas de bem-estar social. A pandemia também encerrou nosso ciclo de entrevistas, já que trouxe uma crise radical para o mundo em que vivíamos até então. Todas nossas entrevistas, contudo, são atemporais, por isso resgatei esta rica conversa com o antropólogo Moreno Saraiva Martins, do Instituto Socioambiental. Falamos sobre a relação dos Yanomami com a natureza, a importância dos saberes indígenas e o papel do ISA nesse contexto. Sem dúvida, uma entrevista extremamente simbólica para encerrar o Projeto Alimento!

 

Moreno, pra começar, fala um pouco sobre os Yanomami e a atuação do ISA na terra indígena.

A terra Yanomami é a maior Terra Indígena do Brasil, com 9,6 milhões de hectares, mais de 300 comunidades, quase 30 mil habitantes e uma diversidade de contextos, cada região tem suas peculiaridades. E nós do ISA começamos a trabalhar na região de Awaris, que é apenas uma parte da terra Yanomami, porque é uma região paradigmática. Existe alta concentração populacional em Awaris e por causa disso existe uma superexploração dos recursos naturais. O que faz com que faltem recursos na região. Começamos a trabalhar lá pensando justamente na gestão desses recursos. Fizemos várias tentativas até que chegamos em um dilema: investir naquela população e tentar mudar um pouco a forma como eles se relacionam com os recursos naturais, ou seja, com a natureza. Por exemplo, criar bicho, que é uma coisa que no mundo indígena é super difícil, porque é preciso mudar as estruturas da sociedade para poder criar animais. Ou tentar resgatar o modo de vida tradicional deles.

Porque vocês se depararam com esse dilema?

Quase todos povos indígenas tem uma estrutura fundante de sociedade baseada numa determinada relação com a natureza. Se, de repente, eles começam a criar bicho, por exemplo, isso muda a relação deles com a natureza, mudando a própria sociedade. Ou seja, só é possível criar bichos se houver alguma mudança na relação entre a sociedade e a natureza. E nós, do ISA, chegamos nesse dilema que era justamente tentar investir nessa mudança social, que é super profunda, ou tentar resgatar a forma como eles ocupavam o território…

Como os Yanomami vivem?

Os Yanomami são tradicionalmente seminômades. Eles vivem cerca de 7 anos em determinado local e utilizam os recursos naturais do entorno basicamente para fazer casa, ocupam os espaços ao redor das comunidades para fazer roça, e fazem caça e coleta no geral. Só que com o passar do tempo, a caça vai se afastando, os locais de roça vão ficando mais distante das moradias e aí acontece a mobilidade territorial, que é constante para poder manter essa forma de vida. O território, inclusive, foi demarcado pensando nisso. Em hectares, é a maior terra indígena do Brasil, por isso tivemos a ideia de tentar resgatar esse modo de vida seminômade.

E o que fez com que eles se fixassem em uma única região?

As comunidades estavam se fixando na beira da pista de pouso e do posto de saúde. E nós também começamos a nos perguntar: porque eles estão se fixando nessa região? Então começamos a fazer um diagnóstico pra entender o quê, de fato, os atraia ali. E começamos a trabalhar para incentivar as populações a se moverem, a saírem de perto da pista para poder acessar outros recursos. Simplificando um pouco: eles estavam ali para ter acesso aos bens da nossa sociedade, que são bens básicos para a reprodução física. A principal, talvez, seja a ferramenta de metal. Nessa parte do território yanomami, por causa da distância e do pouco contato que eles têm com nossa sociedade, existe uma dificuldade de ter acesso regular às ferramentas de metal, que eles usam para fazer roça, para trabalhar. E a sociedade deles se desenvolveu nos últimos 200 anos com base nas ferramentas de metal.

Aí entram outras coisas básicas também: fósforo para acender o fogo… muita gente ainda hoje acende com o pauzinho, mas para quem conheceu o fósforo, fica óbvio as disparidades tecnológicas. Então eles queriam acesso a fósforo, sabão. São comunidades que tiveram relação com missionários durante muito tempo e a roupa virou uma realidade. Se tem roupa, é preciso de sabão, senão eles começam a ter problema de pele. Miçangas, uma série de demandas, chinelos havaianas, coisas super básicas, fruto de demandas que foram criadas nos últimos 100 anos de contato e que traz uma boa vida para eles.

É recorrente vermos notícias nos jornais falando sobre problemas de saúde entre os Yanomami. O que acontece?

Graves epidemias assolaram a região e no início da década de 2000, as comunidades de Awaris foram atingidas por malária, com índices bem alarmantes. Cada ano era comum as pessoas pegarem mais de uma vez malária e isso debilita tudo. Malária é super forte, gera um impacto na pessoa, ela fica muito doente, torna-se menos produtiva. Os Yanomami também desenvolveram ali graves problemas nutricionais, tanto pela superexploração dos recursos naturais quanto pelas sucessivas crises sanitárias. A desnutrição infantil é alta entre as crianças de 0 a 5 anos na região de Awaris… [nota de pesquisa: por causa do garimpo ilegal, também é alta a contaminação por mercúrio].

Mas não tem roça suficiente, frutas, peixes? Por que a desnutrição é tão alta?

A desnutrição acontece mais relacionada a falta de proteína. Não tem caça nem peixe nessa região de Awaris. Eles moram na cabeceira dos rios e por causa da cachoeira não chega peixe grande, não tem uma reposição dos estoques, são peixes de 10 centímetros no máximo, peixinho, piabinha… E o fato de estarem vivendo numa única região há muito tempo faz com que as caças estejam super longe. As famílias que são mais estruturadas conseguem passar bem regularmente, mas em outras, com muitos filhos pequenos, tem uma demanda maior por proteína que não consegue ser suprida, por isso o alto índice de desnutrição. O resultado do nosso diagnóstico foi esse: eles estão lá há muito tempo! E nos perguntamos: de que jeito vamos fazer para eles sairem de lá? Para que possam acessar os recursos, que tornaram-se escassos pelo adensamento populacional fixo na região. Nós já levamos agrônomos para ver roça, tentamos criar peixes, já fizemos projetos de enriquecimento agroflorestal nas comunidades, mas nada resolveu o problema da desnutrição.

Imagino que a desnutrição também tenha implicações políticas para essa população…

Sim! É um problema sério: a desnutrição dos Yanomami, que possuem a maior terra indígena no Brasil, virou uma super munição contra eles. Eles estão passando fome lá, entende?! E a eliminação desse povo pode gerar royalties de mineração. A desnutrição também pode ser usada para levar frango congelado da Sadia para todo mundo comer…. É um dilema isso, porque grande parte da responsabilidade dessa concentração territorial é do Estado Brasileiro, é do mercado dos últimos 50 anos, mas o que fica de manchete é isso: alguns estão passando fome no maior estado indígena do Brasil. Na época, tentamos trabalhar essa dificuldade, ter um diálogo aberto com a Saúde para poder apoiar e incentivar a mobilidade territorial, tem agora esse projeto de geração de renda com os cogumelos para ter acesso aos bens, mas é tudo muito difícil. Apenas parte da comunidade topou o projeto que o ISA tem apoiado, de mobilidade em Awaris. Eles se mudaram para um lugar distante e a nossa aposta é que a partir do momento que a comunidade está bem assentada ela vira um pólo atrator também de outras pessoas querendo descer para essa região com mais fartura, uma região com um pouco mais de baixada, os rios têm capacidade de repôr os peixes e tal. Tem mais caça, mais acesso a recursos.

Só dá pra chegar de avisão nessa região? Quais são as possibilidades de transporte para se locomover ali?

Essa região de Awaris só é acessível por aeronave ou se ficar uns 3 meses pelo rio.

Esse acesso aos bens pela pista de pouso não envolve comida?

É inviável! Um vôo pra lá custa cerca de R$15 mil reais. Não tem como! Em Awaris vivem 20 comunidades, 3000 pessoas. Tem a parte do povo Ykewana também, que vive na Venezuela, eles dividem o territorio com o Brasil. Mas como eles formam um povo de língua caribe, que tem uma obsessão pela educação, uma relação com os brancos muito grande, essas pessoas falam português muito bem, são formadas pela universidade e conseguem para as comunidades deles, de 200 pessoas, um fluxo de ovos e calabresas. Eles têm mais grana, são professores, são super bem formados e conseguem com ajuda do Estado, usando os vôos da Saúde, mandar um estoque relativamente regular de proteína que é o que falta. Esses não têm problemas de nutrição. Mas as outras 3 mil pessoas sim, elas estão muito longe de manipular o sistema, senão mandaria e é isso. Não dá para levar proteína regular para 3 mil pessoas de avião, não faz muito sentido, considerando que eles vivem na maior terra indígena do Brasil.

E qual é o impacto da comercialização dos cogumelos para população de Awaris?

A lógica desse projeto dos cogumelos é de geração de renda, para poder dar às comunidades a garantia de um acesso regular aos bens [citados acima]. E dar uma certa segurança para que eles não precisem ficar colados na pista. Se eles quiserem, podem ir para outros lugares, porque o projeto continua. É possível acessar esses bens mesmo morando longe da pista. Lembro que quando comecei a trabalhar com os cogumelos, estava no fim de um processo que não deu muito certo na região, de criação de peixes, um projeto de piscicultura. Aí eles viram uma demanda: “precisamos criar alguma coisa”. Os índices de desnutrição são super altos, como já disse. E comecei a fazer um levantamento sobre quais eram os recursos naturais mais importantes para eles. Depois juntamos essa ideia com um projeto intercultural de pesquisa e educação que já vinhamos fazendo.

Fala um pouco sobre esse projeto intercultural de pesquisa!

A pesquisa era sobre o que eles usavam para se alimentar. E nós começamos com uma gênese, de criar uma enciclopédia sobre o conhecimento deles, das espécies usadas na alimentação, que é super bacana porque eles detêm esse impulso coletor e caçador muito grande, conhecem muitas coisas da floresta. Por exemplo, existem dezenas de espécies de lagartas que eles consomem, não sei quantas espécies de insetos, larvas, mel, raízes, frutas, procedimentos supercomplexos porque eles têm que tirar o veneno de algumas sementes. Nós começamos a fazer essa pesquisa e nisso veio o dado que eles conheciam mais de uma dezena de espécies de cogumelos. No Brasil, não tinha quase nenhum conhecimento registrado até então sobre isso, informações sobre uso de cogumelos nativos da Amazônia, da Mata Atlântica, enfim, dos biomas.

O interessante é que depois desse processo de pesquisa, fiquei sabendo que até hoje a Ciência e os cientistas não conseguem definir se um cogumelo é comestível ou não. Se você achar um cogumelo na sua casa e levar para o cientista, por exemplo, e se a comestibilidade dele não é dada anteriormente via um conhecimento tradicional, o cientista não vai saber te falar “não, esse aqui não pode comer”. São tantas substâncias desconhecidas e potencialmente perigosas, que se o cientista não souber onde procurar essas informações, não vai saber falar se é comestível ou não. Então nesse processo de pesquisa intercultural, a gente também começou a formar pesquisadores yanomami para poder registrar e organizar o conhecimento deles sobre os cogumelos.

Os Yanomami tem uma relação mítica com os cogumelos?

Não.

Imagino que para saber se os cogumelos são comestíveis, eles devem ter passado mal com alguns não comestíveis… ou não?

Na prática não! Isso são conhecimentos gerados há séculos, conhecimentos acumulados há muito tempo sobre o que se pode comer ou não na floresta. Não são só os cogumelos. Tem insetos, lagartas, larvas… disso tudo, o que se pode comer? Esse conhecimento vem se acumulando a partir da maneira como eles se relacionam com a floresta. Na antropologia existem teorias de como os índios criam conhecimentos, a origem desse conhecimento, considerando que na nossa sociedade temos o conhecimento científico e eles têm o conhecimento deles [chamado de conhecimento tradicional]. O livro mais importante da antropologia sobre isso talvez seja “O pensamento selvagem”, de Claude Lévi-Strauss, que descreveu a metodologia do conhecimento indígena.

Entre os cogumelos, eles utilizam algum não comestível para ter contato com o mundo espiritual? Em rituais xamânicos, por exemplo?

Também não! Usam apenas os cogumelos para se alimentar…

   

Você estava falando sobre o processo de pesquisa, dos itens alimentares…

Dado esse primeiro passo, a gente chamou os cientistas conhecedores de fungos comestíveis: uma pesquisadora do INPA, que fez um contato com um pesquisador do Japão, de uma área super importante de pesquisa sobre ecologia e cogumelos comestíveis no Japão. E eles foram até lá, onde a gente abriu os objetivos de nossa pesquisa, do nosso trabalho intercultural, que era colocar em diálogo o conhecimento tradicional com o conhecimento científico em pé de igualdade. Foi desse diálogo que surgiram dois livros superbacanas sobre o conhecimento dos Yanomami [“Salaka Pö – peixes, crustáceos e moluscos. Enciclopédia dos alimentos Yanomami”, vencedor do prêmio Jabuti Gastronomia em 2016 e Ana Amopö: Cogumelos Yanomami”, vencedor do prêmio Jabuti Gastronomia em 2017].

Em determinado momento nesse processo, dialogando com os índios e eles trazendo essas demandas de “eu preciso de fósforo”, “arruma para a gente”, e obviamente em um universo de 3000 pessoas, a gente não conseguia suprir, veio a ideia de comercializar os cogumelos. A ideia veio deles! Eu estava trabalhando em campo um dia, levei um shitake seco e eles sempre vinham comer com a gente. Aí falaram “ah, esse cogumelo, legal, a gente tem coisa parecida aqui”. Eu comentei “é supercaro isso” e eles falaram “a gente queria vender o nosso também”. “Beleza, para tirar daqui tem que desidratar”, disse.

E começamos a trabalhar nisso… buscamos utilizar as técnicas que eles já tinham para desidratar coisas, porque uma das técnicas de conservação que eles usam é desidratar. Rapidinho eles pegaram como fazer e a gente chegou em um termo bom para oferecer ao mercado. E começamos a estruturar um projeto de venda. E é super interessante, porque cada coletor vai no meio do mato procurar o cogumelo. Vai na capoeira, que é a área manejada para fazer a roça, quando derruba parte da floresta, os troncos grandes caem, eles põem fogo, mas os troncos maiores sobram e esses troncos é que produzem a maior parte dos cogumelos que eles utilizam. Aí eles vão, coletam nessas regiões, levam de volta para comunidade e secam….

Como é feito o processo de desidratação?

Em geral, eles costumam desidratar os alimentos no sol. Então começamos a trabalhar com eles uma outra forma de desidratar. Então eles fazem a coleta em diversos locais, e a desidratação é feita na casa dos coletores e posteriormente a produção é centralizada na Casa do Cogumelo. A gente construiu essa casa e lá é feita a identificação do que é coletado, de cada espécie, tudo é registrado em uma ficha e a pessoa que participou desse processo pede o seu pagamento com base no que produziu. O pagamento é feito em dinheiro, mas geralmente eles não pedem dinheiro, eles pedem os bens, então um par de havaianas equivale a tantos gramas, trocam 1kg de sabão por tantos gramas, e dentro deste esquema a gente tem conseguido mandar regularmente esses bens em uma escala que tem gerado um impacto positivo na região. Eles estão tendo a certeza da continuidade desse projeto, de que eles podem ter acesso aos bens, independente de estarem na beira da pista ou não.

E a questão nutricional, foi resolvida?

Diretamente não e essa é a ideia! As comunidades que estão mais distantes da pista de pouso são super bem nutridas. E agora estamos dando para as comunidades que viviam no entorno da pista essa possibilidade de mobilidade. A gente está querendo tirar essa pressão em volta da pista.

Como é a agricultura local? O que os Yanomami plantam?

Em geral, os Yanomami plantam mandioca brava e bananas, que eles comem normalmente verde. Eles assam a banana verde e comem, fica parecendo uma batata, super gostoso. Comem muita pupunha também. Então a base da roça é banana, pupunha, mandioca e tem outras coisas, uma série de produtos: abóbora, batata doce, mas a base é mandioca e banana.

A proteína vem mais do peixe ou da caça em Awaris?

Um pouquinho de peixe, mas é muito pouco. Um pouco de caça também, porque a caça está cada vez mais longe dos espaços de moradia e o gasto de energia para conseguir essa caça não vale a pena… Tem muita coisa coletada na floresta, larvinha, sabe?! É um picadinho de algumas dezenas de fontes, mas que não dão conta de suprir a demanda por proteína.

Os cogumelos formam uma fonte de proteína importante para eles?

Muito pouco.

Mas eles consomem regularmente os cogumelos ou apenas aproveitaram uma oportunidade de negócio? Pergunto porque nas dietas vegetarinas os cogumelos são uma fonte importante de proteína…

Sim, eles consomem os cogumelos, dentro de toda essa gama de fontes proteicas pequenininhas. E eles comem cogumelos ainda, mesmo com a comercialização. Para você ter uma ideia, a produção de cogumelo deve estar girando em torno de 300 kg de cogumelo seco por ano. Para fazer isso, são necessários 3.000 kg de cogumelos frescos, o que representa aproximadamente 60 kg de proteina. Nas reuniões que o ISA faz no território, a gente sempre leva comida. Em uma reunião, a gente leva mais proteína do que isso! Então poderiam pensar “ah, vocês estão tirando proteína de uma região que está carente desse nutriente”. Mas não! Nós estamos produzindo 60 kg de proteína para dar as condições necessárias para eles ocuparem toda a extensão do território. Para que eles possam sobreviver e terem uma vida boa.

Para quem é vendido os cogumelos?

Varia. Tem alguns parceiros, vai bastante para restaurantes… mas não temos garantia da venda o tempo todo, o cogumelo ainda não faz parte da nossa cultura alimentar. E nós temos 2 produtos: o cogumelo em pó e o cogumelo inteiro. São 15 espécies de cogumelos e dessas, apenas 3 ficam com um paladar e uma textura bacana depois de desidratado e reidratado. As outras 12 espécies ficam com uma textura ruim no paladar, apesar de ter um gosto muito bom. Então a gente decidiu fazer isso: 3 espécies a gente vende inteiras e as outras 12 a gente mói, faz um pó. Os principais consumidores são os restaurantes, que colocam isso nos seus cardápios, os cogumelos inteiros principalmente. Nós também estamos tentando fazer parcerias com a indústria para usar o cogumelo em pó, que é uma coisa super bacana, diferente, pensei que fosse vender fácil, mas a gente não consegue. Por isso estamos buscando empresas para fazer chá mate com cogumelo, azeite de oliva aromatizado com cogumelo…

As parcerias com os restaurantes foram firmadas antes ou depois de começar a produção do cogumelo? Ou seja, qual a importância dos restaurantes para o sucesso do projeto? O projeto deu certo?

Sim, o projeto está dando certo! Ainda não chegamos ao fim para poder avaliar se foi bom ou não, mas está dando super certo em vários níveis, em diferentes dimensões. Fizemos uma parceria com o Instituto ATA, do chef Alex Atala, ele ajudou a desenvolver o produto e seus restaurantes são nossos parceiros desde o início do projeto. São eles que compram uma boa parte da produção, pagando o preço que foi pedido. Hoje vivemos nesse mundo em que os chefs de cozinha viraram celebridades e temos nos aproveitado da posição deles para fazer mídia. Ao mesmo tempo, os produtos brasileiros vêm sendo muito valorizados por eles, pelo movimento dos próprios chefs e entramos nessa onda para ajudar a valorizar os ingredientes, elaborar produtos, divulgar, ajudar a usar esses alimentos na comida mesmo.

A comercialização é feita toda no Brasil ou vende para o exterior também?

Nós vendemos um pouco para o exterior também, mas na Europa, Ásia e outros países, apesar de ter essa cultura de cogumelo mais forte, lá já tem seus próprios cogumelos, não é tão novidade. E os cogumelos Yanomami acabam saindo caro para vender fora do Brasil. Nós temos contato no Japão, na Europa e o maior interesse de todos é pelo cogumelo inteiro. Só que o cogumelo inteiro já tem uma boa saída aqui no Brasil, então não precisamos vender para fora. Já o cogumelo em pó todo mundo acha meio estranho, por isso estamos trabalhando com a indústria, para poder aproveitar isso. O estoque que a gente tem não foi comercializado, então precisamos arrumar um jeito para dar vazão.

Como é que os Yanomami consomem os cogumelos?

Eles consomem frescos. Do mesmo jeito que eles consomem a maioria das comidas: eles cozinham os ingredientes embrulhados em folhas, como a de bananeira, fazem tipo uma trouxa. Até pouco tempo atrás o acesso a panelas de metal era difícil, então eles possuem uma culinária super desenvolvida com as folhas. Pegam essas folhas, fazem embrulhos e assam na brasa. Ou fazem um caldo cozido com cogumelo, pimenta e sal e depois engrossam com uma massa de biju, fica super gostoso.

Agora eu queria falar um pouco sobre a atuação do ISA no debate alimentar… De modo geral, qual é a relação do ISA com a questão do alimento e da conservação da agrobiodiversidade?

Isto está dentro do nosso escopo de trabalho há bastante tempo. De pensar o conhecimento indígena como alternativa a todo conhecimento e toda atividade predatória que temos em relação ao meio ambiente. Por exemplo, fomos parceiros no processo de reconhecimento do Sistema Agrícola do Rio Negro como patrimônio cultural [inscrito no Livro de Registro dos Saberes do IPHAN, em 2010]. Então o ISA busca mostrar a diversidade agrícola produzida pelos indígenas como uma saída à monocultura, que vem transformando nossa alimentação. Outro livro que a gente lançou faz um tempo é sobre o conhecimento dos Yanomami a respeito das plantas, o Manual dos Remédios Tradicionais Yanomami, de 2015. É super bonito! Registra o conhecimento yanomami sobre uma série de coisas da floresta, plantas, fungos, para uso rituais, para construção, plantas medicinais, enfim um trabalho que valoriza o conhecimento indígena. Também fomos parceiros no processo de reconhecimento como patrimônio cultural do Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira [registrado pelo IPHAN em 2018].

Recentemente, iniciamos com maior frequência essa atuação direta com a questão da alimentação, com o conhecimento e o manejo indígena e a valorização disso. Mas o que a gente traz do conhecimento indígena vai além das comunidades… Por exemplo, os cogumelos Yanomami: o objetivo do projeto era trabalhar em cima de um problema específico em Awaris e isso está resolvido. Mas tem também a dimensão que vai além, que é demonstrar para nossa sociedade que existe uma outra relação com a natureza, trazer soluções que os próprios índios criam para poderem produzir a partir da floresta em pé. Então nossa entrada nesse debate sobre alimentação vai muito mais para o lado de valorização do conhecimento que gera biodiversidade, que gera agrobiodiversidade em contraposição à monocultura predatória, de fortalecimento de uma economia com os conhecimento tradicionais.

O que acontece quando se registra um sistema agrícola tradicional como patrimônio cultural? Por que esses saberes estão sendo patrimonializados?

Eu não trabalho diretamente com a região do Vale do Ribeira, mas nós sabemos, por exemplo, que as comunidades quilombolas criaram uma resistência com o modo de vida tradicional deles frente a uma pressão de um outro modo de vida, que inclui agrotóxicos, monocultura e outras dimensões dessa pressão capitalista, que questiona a terra deles para fazer turismo, para plantar banana. Então a patrimonialização do sistema agrícola quilombola, com suas formas tradicionais de plantar e trocar entre as comunidades, fortalece essa resistência.

Na região do Alto Rio Negro, que eu conheço mais, tem um histórico de contato de alguns séculos [entre brancos e indígenas]. A invasão dos territórios indígenas data do século XVIII. E desde então, começou uma desvalorização muito grande do ser indígena, das comunidades, da língua nativa, uma tentativa de acabar com essas populações. E a patrimonialização vem para mostrar que eles têm conhecimento sobre a floresta, que o conhecimento agrícola está ligado ao saber indígena. Isso precisa ser valorizado! Em especial, os índios podem trazer pra gente modelos alternativos de relação com a natureza, sem derrubar a floresta. Porque desde o século XVIII, os brancos vem falando que tudo que vem do índio é sempre ruim, sempre atrasado. Mas espera aí! O que a gente acha que é avançado na verdade está levando o mundo ao apocalipse! Então é importante mostrar que os índios são avançados, porque eles conseguem ter uma relação com a natureza sem acabar com o mundo.

O ISA faz uma intermediação entre essas comunidades e nós, é isso?

Não! Nós dialogamos com eles para que se prepararem para essa relação de uma forma menos desigual. Não é intermediação! E aí entra a constituinte, dos direitos que devem ser garantidos. Nesse ponto, nós trabalhamos com a formação de organizações indígenas para que elas possam garantir seus direitos.

Mas pensando especialmente nessa questão do alimento… Ao fazer os inventários, a pesquisa, os livros, ao patrimonializar o sistema agrícola, isso é uma intermediação ou não?

Acho que não, é uma parceria! São coisas que a gente discute isso aqui também, o status da nossa relação com os índios. Nós somos parceiro deles, pensamos em um mundo alternativo junto com eles…

Sobre Moreno Saraiva Martins:

Moreno é antropólogo, começou a trabalhar no ISA em São Paulo, em 2009, em um programa de monitoramento de terras indígenas. Depois, em 2010 foi trabalhar com os Yanomami. O primeiro trabalho com os Yanomami foi na região de Awaris. Ficou morando em Boa Vista até 2015, depois teve um período de 2 anos em São Paulo e voltou para lá novamente em 2018. Atualmente, coordena a equipe que trabalha com os Yanomami em Roraima.

*Todas as imagens são do Instituto Socioambiental

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