O sabor dos vegetais

O jovem Ruan Felix vem despontando como um importante chef vegano no Rio de Janeiro. O foco da nossa conversa era a cozinha baseada em plantas. Sua identidade LGBT e sua condição de morador da favela, contudo, nos levou ainda mais longe. O resultado foi uma reflexão super interessante sobre comida, gênero e classe.

O que veio antes de Ruan, uma profissão de chef ou o veganismo?

O veganismo! Eu estava em um período complicado da minha vida, tinha treinado na faculdade de publicidade, mas ainda não havia abandonado a profissão. Nesse momento, o conhecimento ou o veganismo são iniciados a partir de então, começando a cozinhar para mim mesmo, o que não foi feito antes. Foi cozinhado para mim mesmo que descobre novas maneiras de cozinhar, fui gostando até que decidi entrar na cozinha e me profissionalizar. Então, o veganismo me deu um norte sobre o que fazer depois que parei de trabalhar com publicidade. Eu descobri que queria cozinhar, coisa que eu não esperava!

Por que você não esperava?

Porque eu não sabia nem bater um ovo! A minha mãe ficou muito chocada e incrementada quando falou: “olha, pedi demissão!”. “O que você vai fazer?”, Ela perguntou. “Eu vou cozinhar!”, Disse. “Como assim cozinhar? Você não frita nem um ovo! O que você vai fazer para as pessoas? ”. Eu entrei na Gastromotiva, que foi uma instituição que me formou, a partir daí entregou comida vegetariana no subúrbio do Rio e depois caminhou para passos maiores, com sonhos sobre gastronomia vegetariana. Agora minha mãe já consegue ver que deu tudo …

E o que você quis aprender a cozinhar?

Você precisa cozinhar para mim mesmo porque acha que era muito abuso da minha parte (ou qualquer outra pessoa) mudar os hábitos alimentares e pedir para outra pessoa cozinhar para você. No meu caso, quem cozinhava era minha mãe. Ela não é vegana, faz as comidinhas do jeito dela. E embora hoje ela já coma muito mais minhas comidas que dela, como é que eu poderia pedir para ela fazer algo que foi escolhido minha? Então comecei a aprender a cozinhar para essa autonomia. Acho que todo vegano tem um pouco disso, na verdade.

Quantos anos você tinha quando virou vegano?

Uns 22 mais ou menos. Foi muito espontâneo, não esperado, vi uma dessas propagandas que falam “se você ama um, por que vem outro?”. Sempre achei esse tipo de propaganda meio tosqueira, mas nesse momento funciona comigo. Eu pensei “nossa, isso realmente faz sentido!”. E comecei a usar, usar e já viu né? A gente cai em um vídeo meio sangrento e tudo mais e eu não consegui voltar. Foi um caminho sem volta!

Como foi a transformação da sua alimentação? Você passou por um período de adaptação ou já adotou o logotipo de cara vegano?

Pra ser sincero, eu fiquei uma semana vegetariano comendo ovos e leite. Mas continuou não fazendo sentido para mim não ser vegano e uma semana depois eu já era vegano. Porque o veganismo é toda uma filosofia para além da alimentação. A minha alimentação é vegetariana estrita e fora dela tem todo um boicote a empresas, o não uso de couro, de mel e tudo mais.

É difícil manter-se vegano?

Eu virei vegano com 22 anos. Hoje já estou com 27. Então faz cinco anos que sou vegano. Não acho difícil. Eu comecei o veganismo pensando no direito dos animais e hoje muitas coisas me seguram no veganismo, inclusive o meio ambiente. E eu sempre digo: não dá para ser vegano com fome! Porque a gente carrega uma bagagem cultural muito grande em termos de comida e quando estou com fome, sinto muitas vontades, sinto vontade de pizza, sinto vontade de outras coisas que não tenho mais na minha alimentação. Então a gente precisa se conhecer bem, conhecer as nossas necessidades para poder trabalhar em cima delas, não escorregar de repente e cometer deslizes dentro do veganismo.

E como é que se mantém sem fome? Imagino que você precise cozinhar bastante para garantir a alimentação vegana…

É, um pouco! Agora estão aparecendo mais opções de comida pronta pra gente. Mas isso exige um pouco de cuidado. As pessoas estão começando a deixar de ver o veganismo como uma comida só de salada para comidas mais processadas. Nós não tivemos um meio termo, saímos de um ponto direto para outro. Por isso o meu trabalho é sempre trazer esse meio termo, essa autonomia alimentar. É preciso conhecer mais os alimentos para poder consumi-los de formas variadas.

Como foi sua formação em gastronomia? Você fez um curso vegano ou tradicional?

Eu estudei a gastronomia tradicional, que faz uso de várias alimentos de origem animal. Mas foi mais tranquilo do que eu esperava! Os professores eram sempre muito abertos, do tipo “você não precisa comer isso”, às vezes acontecia de estarem dando aula e falarem: “ah, mas para quem é vegano, dá pra fazer dessa outra maneira”. Então eu sempre me senti muito incluído na Gastromotiva, eu tenho amigos que estão cursando gastronomia em outros locais, por exemplo, e eles não têm essa mesma sorte de serem incluídos. É lógico que tinha dias que eu chegava em casa chorando porque tive que lidar com coisas que não queria. Mas faz parte do crescimento. Inclusive sempre recomendo aos veganos que querem fazer gastronomia para que façam o curso de gastronomia tradicional, porque tem muitas coisas que precisamos aprender que a cozinha vegana ainda não consegue ensinar no momento.

O que é importante aprender que só tem na gastronomia tradicional, por exemplo?

A técnica de selar, por exemplo. Selar não está restrito à carne. Dá para selar um vegetal para que os sucos dele fiquem concentrados de forma que ele possa ser utilizado de uma outra maneira depois. Tem a questão do uso de gordura. Então tem muitas coisas que você não vai necessariamente usar da maneira tradicional mas esse ensinamento pode te ajudar na cozinha vegana.

O que é importante na cozinha vegana para dar sabor aos pratos?

Você não acha que os vegetais são eles próprios saborosos?! Tipo, quando você pensa em uma couve-flor, o que você pensa?

Eu penso no cheiro quando eu cozinho. Eu não gosto! Acho que por isso não cozinho couve-flor em casa…

Eu tenho um amigo que fala a mesma coisa. Uma vez eu fiz um prato com couve-flor e ele já fez uma cara feia antes mesmo de comer. “Porque essa cara feia se você nem comeu?”, perguntei. “Eu não gosto de couve-flor, sempre que a minha mãe faz tem cheiro de cachorro molhado”, ele disse. E assim, é verdade! Tem esse cheiro mesmo!

O problema é que a gente sempre tem a ideia de que os legumes precisam ser cozidos em água. E essa é uma das últimas coisas que eu faço com vegetais. A couve-flor, por exemplo, eu prefiro ela mil vezes assada do que cozida em água. O chuchu, que é um vegetal composto basicamente de água, o que a gente faz? Pega e joga ele na água! É impossível ou muito difícil que os vegetais sejam saborosos dessa maneira. Então eu sempre sugiro: asse esse vegetal, grelhe esse vegetal, porque aí você vai ter algo crocante, que o nosso cérebro gosta muito. Vai ter algo mais saboroso, porque os sucos se concentram e não se dispersam na água. São pequenas coisas que vão ajudando para que esses vegetais consigam um brilho e um destaque maior.

E em relação a gordura? Esse também é um elemento importante para compor o sabor da comida, certo? Que tipo de gordura dá para usar na comida vegana?

Nossa, muitas gorduras! Eu digo inclusive que a cozinha vegana tem mais gordura disponível do que a cozinha tradicional. A cozinha tradicional é baseada na gordura da carne, do creme de leite e da manteiga. A base sabor dela tem muito disso envolvido. E eu percebo que nossos cozinheiros ainda não conseguem perceber o que eles têm disponível para usar a favor da cozinha vegana. Mas nós temos óleo de coco, azeite de dendê, azeite de oliva, diversos óleos vegetais, óleo de girassol, de soja, óleo de gergelim, temos amendoim, castanhas… tem tanta coisa que consegue trazer gordura! O próprio coco é uma ótima fonte de gordura. Então tem muitas coisas que podem acrescentar gordura nos pratos sem ser necessariamente manteiga, creme de leite e carne. Têm mais riquezas em gorduras vegetais do que a gente imagina.

Mas faz parte da nossa cultura alimentar usar esses elementos para trazer gordura aos pratos?

Aí é que está o nosso papel de chef. O papel do chef não é encostar a barriga no fogão, essa é apenas uma das partes. O nosso papel como chef é modificar essas realidades e dar abertura para novas possibilidades. Os dadinhos de tapioca, por exemplo, não existiam antes. Foi o chef Rodrigo Mocotó que inseriu isso no seu restaurante e a partir daí a receita se espalhou. A mesma coisa com o bolinho de feijoada da Cátia Barbosa. Antes, a gente não encontrava isso e agora é muito comum em vários restaurantes. O chef de cozinha abre esse caminho, para que os alimentos e as receitas se popularizem. A mesma coisa acontece na cozinha vegana.

A Gastromotiva é conhecida por fazer um importante projeto de inclusão social através da gastronomia… Como foi sua experiência lá?

A Gastromotiva é uma ONG e eles fazem uma seleção com pessoas em vulnerabilidade social para montar as turmas de gastronomia. Mas eu não entrei na Gastromotiva pela seleção deles. Eu entrei na Gastromotiva pelo processo seletivo da Micro Rainbow, que é uma ONG que auxilia LGBTs aqui no Rio. Eles eram parceiros, eu fiz um teste e consegui entrar na Gastromotiva por conta dessa parceria.

Você também está nessa situação de vulnerabilidade social?

Sim. Eu moro em uma favela do Rio, em Magalhães Bastos, um bairro um pouco desconhecido, próximo de Realengo.

Sua condição de morador da favela interfere na maneira como você vive o veganismo?

O veganismo ainda está muito atrelado à classe média alta. As pessoas tendem a dizer que é preciso ter dinheiro para ser vegano, mas não é bem uma verdade. Uma parte do meu trabalho é falar sobre isso e a primeira coisa que pergunto às pessoas quando elas dizem que veganismo é caro é: “qual a primeira coisa que você tira do seu prato quando está sem dinheiro, arroz e feijão ou carne?” A resposta é sempre: “carne”.

Então o veganismo não é caro, só é caro se você partir da perspectiva do industrializado. Maionese vegetal, linguiça vegetal, esses itens são caros. Mas é preciso isso para ser vegano ou dá para viver de arroz, feijão, couve refogada e farofa, que é um prato bem básico para o brasileiro? Tem muita gente que coloca uma banana ali para fazer uma parte no prato quando está sem carne… Ou seja, o prato básico, do dia a dia do brasileiro, é vegano! Então é muito difícil dizer que a alimentação vegetariana é cara com os elementos mais baratos do mercado que os são vegetais né?!

O consumo da carne, no entanto, ainda está ligado ao status… e imagino que entre as classes pobres, a carne também é vista como sinônimo de poder social.

Meu trabalho enquanto cozinheiro é justamente apresentar alternativas a esta associação de status com a carne. Não dá mais para impor a carne como algo primordial nas refeições! Eu mostro os caminhos para isso e a pessoa decide se está de acordo com a realidade dela, se cabe no bolso, na rotina… Então minha função é fazer com que o status esteja associado aos vegetais, aos orgânicos e não mais à carne.

Porque de fato, a carne ainda é um elemento de poder social. Faz pouco tempo que o pobre conseguiu chegar no nível de comer carne. Os ricos já estão em um outro nível, que é comer orgânico, por exemplo. Alimentação também é uma forma de segregar socialmente. E quando nós, pobres, chegarmos nos orgânicos, eles, os ricos, com certeza vão achar uma outra forma de fazer segregação alimentar, sabe?! Eles vão achar alguma coisa mais avançada para que tenha essa distinção do que a gente come e do que eles comem.

Você comentou que para manter-se vegano não dá para ter fome. Eu noto que isso também vale para os ultraprocessados, por exemplo. Existe inclusive uma campanha muito forte de personalidades da mídia que dizem que a solução individual para os problemas gerados pela má alimentação é cozinhar a própria comida. Mas isso exige tempo e disponibilidade, principalmente se formos nos alimentar apenas daquilo que preparamos em casa, com ingredientes frescos e não processados… e na vida cotidiana, isso se mostra um enorme desafio!

Sim, a realidade é muito diferente! E é um privilégio você ter tempo para cozinhar a sua própria comida, isso é um fato. Nós veganos não podemos negar que temos esse privilégio. “Ah, mas todo mundo pode preparar um feijão”, poderiam dizer! Bem, aqui onde eu moro, o que que é rápido para preparar? A mulher que já tem todos os trabalhos do lar nas costas e que trabalha fora, ela vai chegar e preparar feijão? Deixar de molho, cozinhar 40 minutos, refogar, ou ela vai fazer uma salsicha? Então a gente precisa ter essas coisas em mente. Precisamos nos desvencilhar desses entraves e mostrar alternativas tão práticas quanto uma salsicha. E aí a gente consegue arrumar umas receitas… eu sempre falo: “se você tem dificuldades, se você não tem tempo, conversa comigo que a gente acha uma maneira de ter uma alimentação equilibrada sem precisar apelar para tantos alimentos de origem animal quanto para junk food”. A gente consegue dar um jeito!

E qual é a alternativa para esse caso da salsicha? Ou seja, o que seria tão rápido e capaz de garantir a saciedade da fome quanto uma salsicha?

Por que não um macarrão? Por que não uma polpa de tomate ao invés de um molho de tomate ultraprocessado? Você só precisa temperar com alho e cebola e o que mais você quiser. O problema é que existe uma associação com junk food como sinônimo de poder aquisitivo. Eu escuto muito onde eu moro: “eu posso pagar por isso!” ou “por que eu vou comer macarrão se eu posso comprar algo mais gostoso e mais rápido como o miojo”. Então são pequenas coisas que estão muito atreladas e a gente nem se dá conta disso.

Se eu for pensar em como é a minha semana, por exemplo, é muito corrida e quando estou de folga, tenho muita preguiça de cozinhar, porque meu hobby acaba se misturando com meu trabalho. E para me desfazer disso, escolho um dia para preparar elementos chaves e ir misturando durante o resto da semana. Deixo o espinafre refogado, o arroz pronto, faço o feijão e coloco no congelador, a mesma coisa com o molho de tomate, que é ótimo de congelar! Então eu sugiro: se tem um tempinho livre e está sem fazer nada, faça um molho de tomate suculento, com tomates frescos, e deixa no congelador. Nós temos que usar essas brechas, porque o sistema não deixa encontrar essas brechas e é proposital! A gente precisa aproveitar esse tempo para cuidar de nós mesmos, da nossa alimentação.

Eu li uma notícia recentemente que dizia que 200 gramas de feijão garantia o mesmo nível de proteína que 200 gramas de carne. Mas comer 200 g de feijão é bem diferente de comer um bife, por exemplo… Como você trabalha a questão da saciedade dentro da gastronomia vegana?

Olha, a gastronomia vegana é algo muito diferente da comida do dia a dia. Na comida do dia a dia, eu como mais do que 200g de feijão, e acho que a maioria dos veganos que eu conheço também, porque eles entendem o feijão como elemento de saciedade. Mas de fato, nós sentimos fome mais rápido, porque nós não temos um pedaço de carne para digerir por tanto tempo. A digestão dos vegetais é mais rápida, e 2 ou 3 horas depois já estamos com fome. Então temos que saber balancear isso.

A pessoa mais aconselhável para falar sobre isso é uma nutricionista. Mas dentro da gastronomia, eu percebo que temos essa fixação por proteínas, uma verdadeira obsessão, quando na verdade, se você for a um restaurante, a ideia é que você coma bem, que você aprecie o prato e não necessariamente que você faça a ingestão de proteínas do dia. Porque a cozinha tradicional tem disso: um bife e dois aspargos grelhados já é considerado um bom prato. E na cozinha vegana? Bem, a gente não tem isso. Então a ideia é apreciar muito mais a criação e o sabor do que avaliar o que eles simbolizam nutricionalmente.

E o que você considera um bom prato vegano?

No dia a dia, eu acho que um bom prato vegano é feito de arroz, feijão, couve refogada, uma salada bem completa e talvez alguns vegetais assados ou grelhados, para mim isso é o suficiente. E normalmente é o que eu como. Na gastronomia, eu tenho outras prioridades. Busco elementos mais sofisticados, alimentos que a gente não costuma ver frequentemente mas que não necessariamente são feitos para saciar a fome. São pratos para que você conheça novos sabores, para que você aprecie aquele momento e coisas do tipo.

Quais seriam esses elementos mais sofisticados que você mencionou?

Na cozinha vegana, nós não temos tantos elementos sofisticados quanto na cozinha tradicional. Nós não temos vieira [frutos do mar], não temos foie gras [fígado de ganso ou pato]. E o que é sofisticado para o vegano? É tudo aquilo que o vegano não pode comer todos os dias. Aí entram cogumelos como cardoncello e Portobello, entra palmito fresco. São coisas que não estão acessíveis diariamente na nossa alimentação… cuscuz marroquino, risoni, que inclusive está em um dos meus menus.

Como você trabalha os seus menus?

Eu vou criando menus de acordo com o que acho disponível no mercado ou com o que tenho vontade de cozinhar. Mas eu não tenho restaurante, então eu cozinho em casas colaborativas do Rio. Essas casas permitem que cada dia da semana um chef e um cozinheiro diferentes apresentem seus pratos.

O que você está servindo no momento?

Os meus menus variam. Mas por exemplo, eu montei um menu com inspirações mediterrâneas para uma data comemorativa, feito de polenta grelhada com patê de lentilhas Puy e Portobello com cebolas caramelizadas. A entrada foi couve-flor assada com creme de couve-flor e tahine dukkah, uma farofinha egípcia feita de castanhas e especiarias. O prato principal era risoni, um tipo de massa, com abobrinha grelhada, cogumelos cardoncellos e gremolata, um molho feito basicamente com salsa. De sobremesa, fiz panna cota com morangos e molho de romã.

Os molhos, em especial, são elementos importantes que precisamos aprender a explorar na cozinha vegana. Eu noto que existe uma tendência a reproduzir os molhos da cozinha tradicional, por exemplo, molho branco feito de castanhas. Mas nós vivemos em um país tropical, não precisamos de molhos pesados! Tem inúmeros molhos mais leves para usar na nossa cozinha e que casam muito mais com nosso estilo de vida.

Neste exemplo, você trouxe um menu com inspiração do Mediterrâneo, com muitos alimentos de origem estrangeira. Você acha que é possível fazer uma cozinha vegana genuinamente brasileira?

Claro! Já existem muitos chefs, incluindo chefs tradicionais, fazendo alta gastronomia apenas com o potencial dos vegetais. A Bel Coelho, com seu menu Clandestino Vegetal, por exemplo, é uma enorme referência pra mim de cozinha brasileira vegetal. E eu venho escrevendo muito sobre isso, sobre o que é a cozinha brasileira vegana. Porque perdemos muitos elementos estruturais da nossa cozinha quando viramos vegano. O que é uma cozinha brasileira sem carne seca, sem queijo coalho, sabe?! Então nós corremos o risco de empobrecer a cozinha vegana quando nos desfazemos desses elementos. Por isso eu venho defendendo uma nova forma de cozinhar, feita com o que temos disponível dentro dos mercados do nosso país. Porque tem ingredientes que estão disponíveis de norte a sul do país, mas que não são tidos como genuinamente brasileiros. Então, como podemos nos aproveitar disso?

Qual alimento está disponível de norte a sul do país que não é considerado brasileiro?

A berinjela, por exemplo! Você consegue associar berinjela com a cozinha brasileira?

Não.

Eu também não conseguia até pouco tempo atrás. Mas se ela está disponível, se eu consigo encontrar ela de norte a sul do país, é sinal de que ela se aclimatou bem aqui, não foi? Então porque não utilizamos a berinjela como um vegetal da cozinha brasileira? A beringela tem inúmeras possibilidades de uso! Por que não usá-la ao lado de uma farofa e de uma salada de feijão fradinho? Nós temos a impressão de que esses alimentos não conversam porque para nós vegetal brasileiro é quiabo, maxixe, então parece que a berinjela destoa no meio de uma salada de feijão fradinho. Mas essa é a ideia de ser cozinheiro vegano. É trazer esses alimentos para nossa cozinha e abrasileirá-los na medida do possível.

Esse menu de inspiração no mediterrâneo utilizava muitos alimentos estrangeiros. Mas já fiz um menu de inspiração no mediterrâneo combinado com influências brasileiras, fiz um chantili de moranga, por exemplo. Então é claro que nós podemos ter uma cozinha vegana brasileira, mas é importante pegar referências de outros lugares para aplicar isso dentro da nossa cozinha.

Você disse que costuma usar muito o tahine na cozinha vegana, por exemplo…

Sim. Nós incluímos o tahine como um elemento a ser explorado dentro da cozinha vegana, mas sempre atrelado a elementos brasileiros. A minha sobremesa desse menu mediterrâneo e brasileiro foi com tahine: uma banana maçã com sorvete de cacau, cachaça, emburana e tahine. A gente perde gorduras como queijo coalho, como queijo da canastra, mas isso não quer dizer que nós não possamos utilizar elementos de outras culturas para agregar à nossa. É assim que se constrói uma nova forma de cozinhar.

Sempre que algum amigo ou amiga vira vegano, eu pergunto se agora eles estão comendo chuchu, berinjela, abobrinha… e muitos dizem que não! São veganos que não gostam de legumes! O que acontece?!

É um pouco complicado. A gente tem uma mente muito voltada para pratos com carne, queijos e laticínios. Tudo de sabor está atrelado a alimentos de origem animal e quando viramos vegano, ficamos perdidos, porque até mesmo os legumes estão atrelados ao sabor da carne. Chuchu é atrelado a camarão, quiabo é atrelado a frango. Como vamos apreciar esses legumes sem os outros elementos que davam tanto sabor? E a ideia da gastronomia vegana é justamente romper com esses condicionamentos. No meu Instagram, que é o principal canal para expor meu trabalho, falo muito disso: nós temos inúmeras outras opções e é lógico que um chuchu na água não tem como ganhar de um chuchu com camarão. Nós precisamos explorar muitos elementos como a gordura, acidez, a profundidade de sabor para fazer um chuchu sozinho ser tão saboroso quanto um chuchu com camarão, por exemplo.

Outra coisa que eu escuto muito em relação aos legumes, mesmo de quem come carne, por exemplo, é: “eu não como abóbora porque era a comida que se dava aos porcos no sítio onde eu morava”. Então também tem essa ideia de que alguns vegetais são comida para outros animais e não para nós humanos.

Painço inclusive. Pra todo mundo que eu falo que como painço as pessoas perguntam: “mas isso não é comida de passarinho?” Não é né! Nós que decidimos o que é comida para gente e o que é comida de animal. Isso é mais uma das coisas que precisamos desconstruir na cabeça das pessoas. Acho inclusive que essa é uma das principais funções do chef de cozinha vegano, desconstruir essas construções sociais em torno da comida. Palma, por exemplo. Muitas pessoas no Nordeste não comem mais palma porque ela está associada com a pobreza, existe a ideia de que só come palma quem está passando necessidade, enquanto isso, no México eles estão exaltando um tipo de cacto, oferecendo ele de uma outra maneira. Por que nós não estamos fazendo igual? Por que não estamos pegando a palma e ressignificando ela na cabeça das brasileiras? Essa é a nossa função: ressignificar esses alimentos!

Para encerrar Ruan, alguns estudos em antropologia mostram que o consumo da carne está associado com a masculinidade, enquanto o consumo de vegetais, com a feminilidade. Como você vê isso?

Então, eu participei de uma palestra do “Outras mamas”, o primeiro podcast vegano feminista do país, que falava justamente sobre essa associação. Porque de fato existe uma ligação muito grande entre carne e machismo e as mulheres do “Outras mamas” vão desconstruindo esse tipo de pensamento. Vão mostrando que existe uma ideia de que o lugar da mulher é na cozinha, mas quando é a hora do churrasco, quem é que comanda? Então a gente consegue perceber essas nuances ligadas de fato. Homens veganos sofrem muito com isso porque a masculinidade deles é colocada em jogo por conta do não consumo de carne. Nas minhas aulas eu falo sobre isso e falo sobre a mulher na cozinha, o quanto mais ela se empodera menos carne ela consome. Porque a carne demanda tempo de preparo, demanda muitas horas dentro de uma cozinha e quanto mais uma mulher se desprende desse tipo de alimentação mais tempo ela tem para se dedicar a outras coisas que ela queira fazer. Então são coisas que estão muito ligadas e a gente nem se dá conta.

E em relação à identidade LGBT… você trabalha essa relação entre LGBT e alimentação, entra nessa esfera?

Entro, em algumas vezes. Talvez não no aspecto do machismo, mas no aspecto de subjugar. Faz muito sentido que LGBTs sejam veganos porque a mesma chave de opressão que faz com que nós humanos nos sintamos superiores aos animais é que faz com que os héteros se sintam superiores a nós, LGBTs. Então como eu posso lutar para que haja libertação de pessoas como eu sem lutar para que haja libertação dos animais? A libertação precisa ser geral, todos nós precisamos estar libertos desses grilhões da vida né?!

As feministas negras que falam sobre vegetarianismo na periferia fazem uma crítica semelhante. Ou seja: dá para lutar pela libertação animal e não lutar contra o racismo? Elas questionam o fato de que existe muito vegetariano que se importa com a vida dos animais mas não se importa com a vida de negros…

Isso é muito complicado. O meu círculo de amigos tem pensamentos muitos semelhantes aos meus, mas a gente lida muito com isso. Tem muito vegano machista, tem muito vegano homofóbico. Essas últimas eleições foram um perfeito exemplo disso: como você pode ser vegano e se alinhar a pensamentos tão retrógrados quanto aos que foram fornecidos nas últimas eleições? As coisas não combinam! São opressões iguais, são as mesmas aos que nos mantém aprisionados. Como você pode lutar por libertação animal e não por libertação humana? Para que a libertação animal aconteça, antes precisa haver libertação humana, porque somos nós que precisamos fazer essa mudança acontecer!

Você disse que dá aulas Ruan… Onde você está dando aula?

Eu dou aula na Gastromotiva. Para compor ou quadro de professores para alunos de empreendedorismo. Então, eu ensino receitas vegetais para eles poderem entrar nesse mercado que também é pragmático, mesmo que não sejam veganos, para que tenham essas opções porque é um mercado em constante crescimento. Dou aulas na Gastromotiva e duas oficinas sociais, oficina em uma casa, é como se fosse uma lona cultural para mulheres no torno do bairro sobre cozinha vegetal e coisas do tipo.

Você também tem um trabalho na sua comunidade. Como funciona?

Não, é uma comunidade bem pequena e não tem muito espaço para isso aqui ainda. É algo que pode ser criado no futuro e eu estou trabalhando nisso.

* Todas as fotos usadas nesta entrevista foram cedidas por Ruan Felix.

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