CSA da Quebrada

A Casa Ecoativa está localizada na Ilha do Bororé, extremo sul da cidade de São Paulo e formou recentemente uma CSA para abastecer a população do bairro do Grajaú com alimentos orgânicos. Conversamos com Jaison Pongiluppi Lara, a terceira geração nascida na Ilha do Bororé e um dos idealizadores da CSA Paiquerê, para saber mais sobre a atuação da Casa Ecoativa e seu papel no debate alimentar da periferia.

Jaison, pra começar, explica o que é a Casa Ecoativa.

A Casa Ecoativa está localizada no extremo sul da cidade de São Paulo, na Ilha do Bororé, uma península que faz parte territorialmente do Grajaú. E nós estamos em uma área de manancial. São áreas que produzem água, que tem mata. Então estamos inseridos nesse contexto de Mata Atlântica e produção ambiental. E a Ecoativa surge como um programa de gestão ambiental ligada à escola Adrião Bernardes, uma escola estadual aqui do bairro. Mas além dessa questão da ecologia, a Ecoativa também sempre caminhou com a cultura e a arte. Eu mesmo sou cria da Ecoativa! Eu sou uma criança que ficava na escola para fazer as atividades de capoeira, arte, teatro, todas iniciativas culturais da Ecoativa.

Quando surgiu essa iniciativa?

A Ecoativa surgiu em 1996. Ela funcionou como projeto de gestão ambiental até 2006. Mas teve uma desmoralização que fez com que o centro cultural fechasse e acabamos perdendo o espaço que nós tínhamos aqui na ilha. Somente em 2013 a gente consegue retomar a Ecoativa. Nós já vínhamos fazendo uma série de atividades com horta escolar e escola na rua, em que abrimos a escola para outros processos e outras metodologias além dos muros. E vimos a necessidade de voltar com a Ecoativa, até no seu sentido mais legalista. Por que a Ecoativa é resultado de um processo de luta de muitos anos da comunidade, onde várias pessoas participam. O movimento artístico, por exemplo, foi fundamental nesse processo. Foi o Fórum de Cultura do Grajaú, na verdade, que conseguiu retomar a Ecoativa em 2013.

E hoje, como é a atuação da Ecoativa?

Em 2013, quando voltamos com força total, com várias pessoas, vários grupos da cidade e do próprio Grajaú acessando esse território, nós acabamos nos tornando um espaço com uma programação periódica. E a gente está conseguindo viver desse trabalho que estamos fazendo na Ecoativa. Já conseguimos uma série de editais públicos da pasta da Secretaria do Meio Ambiente, projetos de educação ambiental e de cultura. Então nós estamos fazendo um trabalho com um núcleo presente semanal. É um grupo multidisciplinar, com grafiteiros, pedagogos, educadores, psicólogas. Uma força de vários coletivos. Também tem essa cena do sarau de cordas…

E na parte ambiental? Como vocês se organizam?

Aqui virou um espaço de referência, de permacultura na cidade. Têm muitas tecnologias já implantadas e a gente está vendo um resultado muito grande com isso. E isso acaba atraindo uma cena muito forte da academia. Hoje, por exemplo, a gente tem um programa de extensão com a escola do Adrião e a Faculdade de Arquitetura e Arte da Universidade de São Paulo (FAU USP). E o território é muito potente, né? É muito rico. É muito forte da própria ilha, da própria península. Então, nós temos aqui os agricultores locais, os sítios de agroecologia, tem a historicidade, a mata, os parques, os coletivos culturais, uma cena efervescente de cultura muito forte, uma cena independente muito criativa. A economia solidária funciona há muito tempo aqui. A agroecologia, o protagonismo feminista, todas essas tecnologias que a gente escuta falar, a quebrada já está fazendo isso há muitos anos.

De que forma essas ações repercutem localmente?

Nós temos os roteiros de turismo de bases comunitárias, desde o café na roça, a visita no sítio, pra falar desse universo da agricultura familiar, o quão difícil é o universo da cultura familiar, agroecologia. E é a partir dessa vontade de ver esses produtos orgânicos e agroecológicos serem consumidos por quem está no território, por quem é do bairro, que surge a iniciativa da CSA [Comunidade que Sustenta Agricultura]. A CSA é fruto de um programa que já existia, na verdade. A gente está em um guarda-chuva macro, que tenta escoar esses produtos [orgânicos e agroecológicos], seja por merenda escolar, seja através de feiras livres. Agora a Ecoativa está cuidando da CSA, que é um grupo de consumo responsável do território.

Como é a demanda pelos produtos orgânicos e agroecológicos produzidos na periferia?

Aqui na região sul de São Paulo, pra você entender, tem a COOPERAPAS, uma cooperativa de produtores orgânicos, uma das pioneiras da cidade e que faz um trabalho super importante. Porém, o maior fluxo de caixa da COOPERAPAS são de lugares geograficamente mais centralizados da cidade. Então, a maioria dos produtos ainda vão para Vila Madalena, pro Ibirapuera, para os restaurantes atrativos, por exemplo, da Paola Carosella, que é do Masterchef, restaurante Jacarandá, o próprio Instituto Chão, na Vila Madalena. E isso não é um problema. Mas quando só tem esse viés e esses alimentos só vão para esse tipo de público, aí a gente tem um problema, porque a gente tem um deserto alimentar [aqui no Grajaú], a gente ainda está parado na desigualdade social, e esse alimento, por mais que seja produzido aqui, não está chegando para quem mora aqui.

Foi por isso que surgiu a ideia da CSA?

A gente já vinha fazendo o movimento da entrega de cestas de orgânicos há alguns anos, que é uma tecnologia simples de contato com o produtor, que parece muito com a CSA. E em 2017, nós fizemos um trabalho de articulação – através de editais públicos, a importância das políticas públicas, né?! A gente conseguiu dar um gás, e deu para realmente criar o projeto, as pessoas começaram a pagar mensalmente, começou realmente a cair nas cotas mensais. A galera não bota muita fé, por isso começamos fazendo as cestas, pra galera ver, começar ver as fotos, alguém falar… Porque para formar uma CSA, primeiro você combina uma reunião aberta, fala todo o trabalho conceitualmente e depois cria o grupo. Mas a gente teve que primeiro vender as cestas de orgânicos para depois implementar esse conceito de CSA, que é mais demorado.

Qual o impacto da CSA para essa região?

Na CSA você sai desse processo de consumidor e vira co-produtor, só paga lá na frente. E isso cria uma relação de comunidade. A gente vem funcionando desse jeito desde meados de 2017, e vimos uma potência enorme desse projeto, porque tem muita gente querendo acessar isso aqui dentro do Grajaú mesmo. Cada vez mais as pessoas vêm aderindo… Fora que existe um tabu, muito por conta da desigualdade social, de que o alimento orgânico não é prioridade nas quebradas, nas periferias… ele não é a prioridade de debate. Mas na verdade, está tudo relacionado: saúde, economia, cultura, está tudo relacionado com o que a gente come. Eu acredito ainda que, por uma questão perversa do capitalismo, esse movimento [dos orgânicos] foi cooptado por quem tem mais grana. Então quem acessa esses alimentos é um nicho de pessoas mais agraciadas financeiramente. E isso criou um abismo muito grande. Quem tá na periferia acha que não é prioridade debater esse assunto de orgânicos. Então, é muito difícil trazer a galera para esse debate.

Qual a sua relação com o território? Você nasceu na região, é agricultor? Conta um pouco sobre você!

Eu nasci aqui na Ilha do Bororé. Sou a terceira geração da família que está aqui. Meu avô veio da agricultura familiar e já produzia orgânico antes mesmo de existir esse termo. A minha mãe está aqui até hoje com meu pai e eu também moro aqui na Ilha do Bororé. Eu mesmo entro na agricultura em 2009. Eu viro produtor orgânico durante dois anos e escoou esses produtos. Depois faço uma migração para a parte da educação, onde utilizo a horta como recurso metodológico. Eu migrei para educação porque não conseguia me bancar somente na produção agroecológica, vendendo apenas esses produtos. Eu ainda hoje não me encontro numa situação em que eu viva somente do que eu produzo da terra. Então eu faço outros trabalhos: consultoria, educação, porque a lida com a terra não me proporciona segurança, financeiramente falando.

E como você percebe o consumo de orgânicos na periferia?

Tem muita gente que quer consumir, que tem grana, que está disposto a pagar. E temos que estar dispostos para proporcionar esse acesso. Porque a força econômica da periferia é muito grande. E se não tem alguém olhando para esse público, eu me interesso, porque são pessoas que nem eu, são os nossos. E eu vou atender os nossos. Então eu sempre produzi escoando para cooperativa com uma vontade de entregar na região. Se eu produzo aqui na região e se o meu cliente for cada vez mais próximo, pra mim o gasto vai ser cada vez menor. É mais questão de logística… eu não tenho problema em fornecer meu alimento para outro nicho de público, não é isso. Só que quando comecei a escoar esses produtos, desde o começo a gente pensava em atender a comunidade da região. Eu acho que é mais isso, tanto uma necessidade, quanto uma demanda.

Mas tem tido essa adesão aos produtos orgânicos e agroecológicos?

Bem, nós fizemos por um ano a feira de Parelheiros, mas não engatou. A logística que mais vem sendo interessante para nós são as cestas, os deliverys, dentro desse guarda-chuva da CSA. Para quem quer comprar pontualmente, ou semanalmente. Então por enquanto a galera retira em dois pontos específicos do Grajaú. Como é que funciona? A galera paga mensal para o sítio Paiquerê, da agricultora Tomi. Ela foi uma das primeiras agricultoras certificadas no município de São Paulo, pioneira. Nós somos parceiros já há algum tempo, têm vários projetos que a gente faz no sítio Paiquerê com escolas, visita à horta, faz turismo e agora tem a CSA. Hoje, a gente tem de quinze a vinte pessoas cadastradas, membras, que semanalmente retiram as cestas, mas é um número que a gente quer ampliar.

Então são quinze a vinte famílias participando da CSA…

Isso. Quando começamos, em 2017, a gente conseguiu atingir a meta de trinta famílias, mas na virada de ano, algumas pessoas saíram e retornaram somente em abril desse ano [2018]. Cada um tem um tempo diferente. A ideia é a gente ampliar esse número e se tornar mais substancial para a própria Tomi. Mesmo assim, ela tem uma boa devolutiva. O agricultor beneficiado pelo projeto tem um aumento de dois até três mil reais por mês com a CSA. Então além do que ela já atende, a CSA é mais uma vertente. E é um modelo que está dando certo.

Você falou sobre o ganho do produtor ao aderir ao modelo de CSA. E para a população, qual é a maior vantagem ao participar do projeto?

Eu acredito que se a ideia da permacultura é fechar ciclo, a nossa CSA acaba sendo muito mais potente, porque ela é produzido pelas pessoas daqui e é articulada pelas pessoas daqui. Então, na cidade, é a única CSA que consome no próprio local. Por conta disso, a gente chega em uma outra qualidade de produto, que é o produto ultra fresco. Se o produto não é colhido no dia, ele é feito um dia antes. Sexta-feira a Tomi está colhendo os verdes. As folhas, ela está colhendo no sábado entre 10h e 11h30.E o valor das cotas é diverso. Nós chegamos em duas cotas, com seis produtos e com oito. Com seis produtos, custa 25 reais e com oito, 35 reais, isso por semana.

Existe alguma conexão desse trabalho com o movimento de agroecologia liderada pelos moradores da região central de São Paulo, por exemplo, a horta da Corujas, em Pinheiros, ou mesmo o trabalho de articulação que o Lucas Ciola faz na cidade?

O nosso trabalho enquanto Ecoativa é trazer a borda da cidade para a centralidade. O nosso espaço é bastante incisivo na cidade. A gente faz esse trabalho e também ocupa outros espaços. A relação com o Lucas Ciola é com a Rede Permaperifa. Ele é um cara que sabe dos seus privilégios e mesmo assim é um baita mobilizador. É um puta educador, um querido. Eu já fiz várias coisas com o Lucas, estamos em constante agenda, cada um do seu jeito, mas a gente tenta se encontrar ao máximo. É um parceiro de luta! E a gente cria essa sinergia, principalmente na Rede Permaperifa, onde a gente se encontra periodicamente. Ele também tem a relação com o PDC, que é o Curso de Design de Permacultura e aí a Ecoativa tem muitas parcerias. Aliás, o último PDC foi na Ecoativa e foi uma imersão. O Lucas ficou nove dias aqui com a gente na Ilha do Bororé, foi o primeiro PDC de imersão na cidade. Então, vem desse acesso. A gente está fazendo muitos trabalhos na cidade também, a gente está com uma série de projetos, mas a gente tem uma relação arroz e feijão com o Grajaú, com o bairro, né?!

E como foi pra começar a parceria da Ecoativa com o sítio Paiquerê? Essa ideia da CSA veio de dentro ou de fora? Houve a necessidade de entrar em contato com a classe média de São Paulo para desenhar a CSA, por exemplo?

Eu não sei como é esse despertar, onde é que virou a chavinha, para gente estar atento. Na verdade, acho que veio a partir da nossa vivência enquanto comunidade. Acho que foram as pautas, as conversas sobre política, os debates gerados. E isso é até um pouco louco, paradoxal. Porque a gente entra numa lógica de pensar os centros urbanos distantes da periferia. Mas essa lógica da cidade não faz necessariamente quem está no centro se alimentar bem. Todo mundo da cidade está se alimentando mal. O alimento sem qualidade chega para todo mundo e chega mais para quem tem dificuldade financeira, que são os moradores da periferia. Então é difícil te responder onde vira essa chavinha, vindo de um universo de agricultura. Acho que veio de onde os valores são outros, sobre o que é o alimento, a partilha, sempre ter uma abundância. Você ter alimento disponível ali já é uma vivência que a gente traz – o que não significa que todo mundo da periferia tenha isso! A Ilha do Bororé é singular, porque a gente chama ela de gueto rural, é quebrada, mas ainda é zona rural, ainda tem natureza, verde, nem o crime chega direito, o índice de criminalidade não vem aqui. Aí, é muito louco, por que o meu bairro passa por um lugar perigoso sendo que a vida inteira eu morei com o portão aberto! Eu nunca fechei a minha casa!

Mesmo o Grajaú sendo conhecido como um dos locais mais violentos da cidade de São Paulo?

Onde é perigoso? Eu sei que existem estatísticas… o Grajaú brigou muito com o Jardim Angela em épocas sobre criminalidade, mas os tempos são outros. A periferia está ocupando as páginas de cultura, não as páginas de criminalidade. O que é perigoso é o Congresso, o Congresso que é criminoso! Aí a gente entra numa lógica e em um discurso que é maluco. Quem é que está se alimentando mal na cidade? Então, acho que o debate para rolar essa inciativa da gente consumir orgânico no bairro é empírico, surge de maneira natural essa vontade de escoar os produtos localmente, nas feiras locais, nos rolê diretos com o produtor, indo nos sítios e colhendo os seus alimentos. É uma série de iniciativas com o viés da gente se alimentar bem e vai culminando nisso. Por exemplo, restaurante e bares, que são empreendimentos legais e que estão na periferia. Existem restaurantes legais tanto no centro como na periferia, tanto que tem o mapeamento da galera do Guia Gastronômico da Periferia, onde você tem um monte de empreendimento que faz uma alimentação muito boa!

Esse debate sobre alimentação é novo na periferia ou sempre houve essa preocupação entre os moradores locais?

Não sei, talvez as políticas públicas… com o tempo, as pessoas foram tendo mais acesso a consumir! A gente viu isso. Vemos essa cena e também essa novela sem fim que é a política fruto do Lula, se o cara roubou ou não roubou, ele deu mais condição. Hoje a galera não passa mais fome, a gente tem carro, mas também foi uma política que só fez a galera consumir sem se questionar e isso tem ressalvas. Mas o governo e as políticas públicas foram avançando para discutir alimento de qualidade na quebrada ou será que isso sempre foi pauta e a gente não ouviu? Isso também podemos questionar. Na nossa experiência sempre existiu a vontade de ver esses produtos sendo escoados aqui e em todos os lugares, a gente quer acessar e levar alimento para todas as pessoas, de qualquer jeito. Nós, enquanto Ecoativa, somos um dos grupos que mais dialogam entre esses muros e pontes da cidade. Quem é da periferia, quem é boy, quem tem grana ou é da classe média, a gente quer, na verdade, fazer uma discussão ampla. Não queremos saber quem tem mais grana ou quem não tem, até porque isso não garante nada. O capitalismo é tão perverso que causa dano em até quem tem grana.

Então você acha que temos que aproveitar esse debate sobre alimentação para discutir sobre nossa própria condição humana…

Claro! Se é pessoa da periferia que vai acessar o alimento, se essa pessoa é x, y… se é mulher, homem, a gente está disponível para conversar e oferecer um produto de qualidade. Acho que mais ou menos é por aí. Se a gente for ver que nós somos sujeitos do tempo, as comunidades tradicionais se alimentam há muitos anos desse jeito, a galera ainda come taioba. O que hoje é cool, é cult consumir, PANC, por exemplo… a galera nem sabe o que é PANC, mano. PANC é punk rock! Planta alimentícia convencional está inventando moda. Eu vou ensinar PANC para uma senhora que comeu isso a vida inteira? Ou vou falar de permacultura, que foi criada em 1960 por dois australianos, para essas populações? Lógico que não! Isso existe há milhares de anos. Então, eu acho que é importante a gente ter esses meios de divulgação, de debate, de publicizar esses meios de acesso. Acho que tudo está voltado ao acesso. Até quando estamos falando de coisas ruins. Para você passar fome, primeiro, tiraram o seu acesso a comunicação, porque senão você saberia que não tem como você passar fome, é um boicote. Então, primeiro, tiram a sua informação, antes de tirar sua alimentação♦

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