Feminismo na Cozinha

Muitas mulheres conseguiram romper com o fogão, mas não se desvincularam da responsabilidade sobre a alimentação da família. Elas continuam decidindo o que a família vai comer, quer façam as compras ou não.

Editado em 06/08/2018 às 17:15 hrs.

Em diversas épocas, em variadas culturas, o preparo da comida, em geral, está atrelado a uma atividade feminina. Quando lembramos que só as mães carregam os filhos na barriga, o fato da preparação dos alimentos estar atrelado tradicionalmente ao universo feminino acaba por naturalizar essa prática. Como se apenas as mulheres nascessem com a capacidade de fazer a comida assim como nascem com a capacidade de gerar filhos.

Não por acaso, durante o movimento feminista que aconteceu nos anos 1970, as bandeiras que mais repercutiram entre as mulheres das camadas médias foram justamente a possibilidade de negar a vinculação entre mulher e cozinha, tanto quanto a possibilidade de escolher entre ser ou não ser mãe.

Talvez seja por isso que a geração das mulheres que hoje têm por volta de 60 anos preferem encontrar a família no restaurante do que ao redor de sua mesa no almoço de domingo. E as mulheres que ainda preparam o almoço de domingo fiquem tão preocupadas em garantir que suas filhas estudem para não reproduzirem este padrão. Os estudos, a especialização técnica e o trabalho fora de casa tornaram-se as grandes chances para que a mulher possa se dedicar a outras atividades que não sejam os cuidados com a casa e com a alimentação da família.

O que vemos no Brasil atualmente, no entanto, é um contexto onde mesmo a mulher que trabalha fora de casa continua sendo a grande responsável pelos cuidados da casa e da alimentação familiar. Muitas conseguiram romper com o fogão, mas não se desvincularam da responsabilidade sobre a alimentação da família. Ainda são as mulheres que, na maioria das vezes, decidem o que a família vai comer, quer elas façam as compras ou não. É difícil ver um homem gerenciando a geladeira e a dispensa quando há uma figura feminina ao seu lado. Mesmo que o homem saiba cozinhar. Mesmo que a figura feminina rejeite inclusive a tarefa de gerenciar a alimentação da casa.

Isso é tão paradoxal que há inclusive uma disputa enorme para que a mulher possa ocupar a função de chef nos restaurantes. No ambiente doméstico, também sobram elogios aos homens que cozinham – e muitos apenas esporadicamente, os famosos cozinheiros de fim de semana! Mas será que as mulheres que se debruçam diariamente sobre as panelas são elogiadas nessa mesma proporção? Por outro lado, uma mulher que não cozinha é alvo fácil de crítica. Ou seja, naturalizamos uma prática cultural quando convém e disputamos o seu papel social quando há vantagens.

E como explicar o longo tempo que as Ciências Sociais demoraram para tornar a alimentação um objeto de estudo? Alguns autores explicam que isso se deve à banalidade do ato de se alimentar. Afinal, todos comem, dizem! Mas se fosse assim, o sexo ou o próprio pensamento não seriam objetos de estudo há tanto tempo, não é mesmo?! Oras, a alimentação demorou a se tornar um objeto de estudo porque está vinculada à mulher desde que o leite materno é o alimento do novo bebê que nasce.

Na Arquitetura também tem um exemplo que ilustra bem a vulnerabilidade da condição feminina e a alimentação: em 1926, a primeira arquiteta alemã Margarete Shütte Lihotzky desenhou uma cozinha pensando nas mulheres cozinheiras. Tempo, conforto e trabalho definiram o projeto. A cozinha de Frankfurt, como ficou conhecida, foi construída em um número considerável de moradias da cidade. Mas definitivamente não se tornou um projeto clássico da arquitetura. Caso contrário, teríamos cozinhas mais eficientes hoje em dia!

Vemos então que o lugar do feminismo ainda é na cozinha. As tarefas envolvidas no processo de uma refeição vão muito além do preparo do alimento. A limpeza de uma cozinha envolve muito mais do que pratos e talheres limpos. Enfim, é na cozinha que as mães ensinam meninos e meninas sobre autonomia e colaboração, a servir ou a serem servidos. E você, já parou para pensar nisso??

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