O direito alimentar e a fome

Todas as vezes que vou para o fogão e escuto as panelas chiando, lembro como é bom sentir aquele cheiro gostoso de comida fresca feita em casa. Penso comigo mesma como sou privilegiada. Principalmente, me pergunto por que é tão difícil garantir uma alimentação que promova a saúde e o bem estar para todos? #DiaMundialdaAlimentacao

O direito alimentar e a fome

Em 2016, li uma reportagem da jornalista Eliane Brum @elianebrum que me deixou um tanto desconsertada. Um de seus entrevistados dizia que “casa é onde não tem fome”, se referindo aos problemas enfrentados por ele e sua família após a invasão de suas terras para a construção de Belo Monte, no Xingu.

Desde então, todas as vezes que vou para o fogão e escuto as panelas chiando, lembro como é bom sentir aquele cheiro gostoso de comida fresca feita em casa. Penso comigo mesma como sou privilegiada. Principalmente, me pergunto por que é tão difícil garantir uma alimentação que promova a saúde e o bem estar para todos?

Por que é tão difícil promover uma produção agrícola sustentável, livre de agrotóxicos? Ou mesmo regulamentar a venda dos alimentos ultraprocessados que intoxicam a população com gordura, açúcar e sal?

O fato é que existem tantos interesses políticos e econômicos que podem impactar a forma como nos alimentamos que é necessário sempre refletir sobre isso para exigir dos governantes, quaisquer que sejam, o devido respeito a esta questão que é cara à nossa sobrevivência.

Ao mesmo tempo, não paro de pensar como a pauta da alimentação foi fundamental no governo Lula e anos depois, cuja construção de Belo Monte talvez tenha sido o primeiro indício sobre o que estava por vir, também indicou a derrocada do seu projeto governamental para dar lugar a pauta da fome mais uma vez.

Lembro, por exemplo, que um dos primeiros textos que publiquei aqui no Projeto Alimento apontava que no Brasil de 2001, uma parcela significativa da população vivia com menos de $1 dollar por dia e consumia apenas 1.650 kcal de comida, quando o recomendado pela ONU era 1.900 kcal.

Não à toa, quando Lula foi eleito a primeira vez, ele fez um lindo discurso dizendo que todo cidadão brasileiro deveria ter o direito de comer três refeições por dia. A pobreza era considerada a grande responsável pela fome no país, por isso, todos seus esforços seriam para reduzir a pobreza e garantir a alimentação da população, enfatizou Lula.

Para quem sempre teve fácil acesso aos alimentos, talvez aquele discurso não tenha sido tocante. Mas foram necessários anos implementando diversas políticas transversais para garantir o direito alimentar no país. Em 2014, no início do segundo mandato do governo Dilma, o Brasil finalmente saiu do mapa da fome.

Todo esse esforço, contudo, foi por água abaixo com o golpe de 2016. De lá para cá, eis que não paro mais de ler notícias sobre a volta da fome ao país. Se anos atrás, houve um projeto de governo para garantir o direito alimentar, hoje estamos vendo um projeto que promove a fome. E é uma pena que as pessoas que têm comida em casa não se importem com quem não tem. Porque nada pode ser tão mesquinho quanto ignorar a fome do outro enquanto você se alimenta.

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