O que é comida para você?

Nem tudo o que comemos é considerado comida. Por isso surgem expressões como “comida de verdade” ou “comida lixo”. Nesse ponto, surge uma questão central: que tipo de alimentação estamos adotando no momento que precisamos identificar a comida dessa maneira?

A maneira como denominamos o que comemos indica as infinitas e complexas ideias sobre alimentação.

A primeira vez que parei para pensar no que era comida de forma consciente foi quando estive na Amazônia para fazer minha pesquisa de doutorado. Durante esse período, convivi por meses a fio com pequenos agricultores e ex-seringueiros no interior de Cruzeiro do Sul, Acre. E nesse convívio fui percebendo, aos poucos, que apesar de haver muito alimento disponível, nem tudo o que eles comiam era considerado comida.

Por exemplo: açaí, patoá, bacaba, pupunha e buriti eram chamados de caroços e podiam se transformar em vinho. Não era considerado comida! Mamão, coco, laranja, abacate, goiaba, cupuaçu eram frutas. Não era comida! Banana era banana!! Dava para fazer frita, cozida, assada, comer crua, enfim, um alimento substancioso servido no café da manhã, depois do almoço como sobremesa, no lanche das crianças. Mas não era comida! Arroz e feijão era só arroz e feijão mesmo, não era comida!

É claro que isso é um modo de dizer. Todos esses alimentos eram consumidos como comida por essas populações. Mas só era considerado comida a refeição que tivesse algum tipo de proteína animal: caça, carne de gado, galinha, porco, peixe. As pimentas, vejam só, eram consideradas verduras. E couve era tempero, assim como cebolinha, coentro e chicória. Tapioca, beléu, beijú, carimã e outros derivados da mandioca faziam parte da alimentação cotidiana, mas também não eram considerados comida. Farinha de mandioca era item obrigatório em todas as refeições, caso contrário, a refeição não estava completa, mas sozinha também não era considerada comida!

É que para essas populações, o entendimento sobre comida tinha a ver com o de uma refeição que promovesse a saciação prolongada da fome. Talvez por isso só as refeições com carnes e peixes em geral eram consideradas comida. Esse jeito de encarar a comida, contudo, não é exclusivo dessas populações. De volta à minha casa e à minha vida na cidade também percebi que estamos o tempo todo definindo o que comemos a partir da oposição entre o que sacia a fome e o que disfarça a fome. Ou seja, o que é comida e o que não é comida.

Por exemplo, o salgado! O que é o salgado senão aquele alimento genérico que pode ser frito ou assado, um quibe, uma coxinha ou uma esfiha, mas que não é considerado comida? Na mesma linha do salgado, existe a expressão “lanche”. O lanche refere-se tanto aos alimentos consumidos entre as refeições principais – café da manhã, almoço e jantar, como serve para identificar que a refeição que deveria ser reforçada, ou seja, que deveria ter “comida”, tem apenas sanduíches, tortas e outros alimentos que não são considerados comida. É muito comum escutarmos, por exemplo, que “ao invés de jantar, vamos apenas tomar um lanche à noite”. Ou então: “O que você comeu no almoço? Nada, apenas um lanche!”.

Outra oposição em relação à comida é a noção de “porcaria”, muito usado para explicar às crianças o que não é saudável, e portanto, deve ser consumido com restrição, tais como bolachas, refrigerantes, chocolates, balas e outras guloseimas. Entre aqueles que fazem dieta, é comum a referência ao “dia do lixo”, quando é possível romper com os alimentos prescritos e afundar o pé na jaca com frituras, pizzas, sorvetes e outros alimentos considerados não-saudáveis, que engordam e trazem doenças. Ou seja, “comida lixo”.

E claro, não poderia deixar de mencionar a “comida de verdade”. A nutricionista Ana Laura Louzada conta que essa expressão surgiu da boca da própria população, que ao ser questionada sobre o que era alimentação saudável, fazia referência a saladas, coisas verdes e sem gordura. Mas quando era questionada sobre comida de verdade, fazia referência a itens como arroz, feijão, carne, batata e salada, o mais famoso “prato feito” do brasileiro. Hoje, comida de verdade tornou-se símbolo de comida não processada pela indústria, feita de maneira artesanal, comida caseira, com ingredientes frescos ou pouco processados.

A maneira como denominamos o que comemos indica então as infinitas e complexas ideias sobre alimentação. A começar pela definição do que é ou não comida.

Em geral, o entendimento sobre o que é comida está ligado ao de uma refeição completa, que sacia a fome, faz bem para o organismo e nos deixa forte! E se por um lado, nem tudo o que comemos é considerado comida, por outro, o sentido de comida parece estar em disputa. Por isso surgem expressões como “comida de verdade” ou “comida lixo”. Nesse ponto, surge uma questão: afinal, que tipo de alimentação estamos adotando no momento que precisamos identificar a comida dessa maneira?

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