Pandemia e alimentação

Nesses tempos em que o bem-estar e o cuidado tornaram-se centrais para o enfrentamento da pandemia, necessidades imediatas como oxigênio e alimentação estão em disputa, tornando nossa já frágil existência ainda mais efêmera. O momento, portanto, exige profunda reflexão.

Pandemia e alimentação

No início de 2020, fomos atropelados com a notícia de que um vírus letal, chamado COVID-19, havia chegado ao Brasil. Aqui, como todos sabem, o caos se instaurou tornando nosso contexto desolador. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desde o início negou a pandemia e estimulou a população a sair de casa para voltar ao trabalho nas ruas tão logo foi decretado a quarentena, contrariando todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde e colocando em dúvida a autonomia dos estados brasileiros na administração da maior crise sanitária do último século.

Depois de um ano, o número de mortes não para de aumentar. No instante em que escrevo, já são mais de dez milhões de infectados e 247 mil mortes em todo Brasil. Amanhã esse número certamente será maior e isso tem uma causa que não é apenas biológica, mas política.

Quando a pandemia chegou ao Brasil e os estados começaram a anunciar a quarentena, Bolsonaro, ao invés de mostrar-se preparado para enfrentar a pandemia, estava convocando manifestações nacionais para pedir o fim do Supremo Tribunal Federal e o fechamento da Câmara dos Deputados. A primeira manifestação aconteceu no dia 15 de março de 2020. O presidente foi às ruas cumprimentar a população, mesmo sabendo que havia uma suspeita dele próprio ter contraído o novo coronavírus diante de inúmeros casos positivos na sua equipe de governo naquele período.

Esse fato jamais deveria ser esquecido! Não só porque Bolsonaro foi leviano ao sair às ruas no início da pandemia e incitar os seus a se aglomerarem, mas principalmente porque a História já demonstrou que a dissolução do STF e da Câmara dos Deputados designa o primeiro movimento para a instalação de uma ditadura militar. Havia naquele momento, portanto, um cenário de golpe no ar que foi encoberto pela chegada do novo coronavírus. Quando Bolsonaro foi às ruas saudar seus apoiadores, as crianças já haviam deixado de ir às escolas e os idosos estavam recolhidos em casas. Dias depois, a população se preparava para entrar em isolamento total.

Uma ansiedade muito grande tomou conta dos brasileiros. Muitos viajantes tentavam retornar ao Brasil enquanto estrangeiros deixavam o país. Os supermercados das grandes cidades ficaram lotados e as pessoas começaram a estocar alimentos, produtos de higiene, água e gás. A primeira semana de isolamento foi marcada por ruas vazias e inúmeras notícias sobre o aumento do número de mortos.

Bolsonaro continuou contestando a estratégia do isolamento social orientada pela OMS. A pandemia, disse, “não passava de uma gripezinha… alguns iriam morrer, mas não tinha problema”. O presidente começou então uma verdadeira guerra contra os governadores e seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), que foi demitido porque estava realizando uma política satisfatória para conter a crise.

Usando o argumento de que a economia não podia parar, pois havia o risco das pessoas começarem a morrer de fome, Bolsonaro convenceu milhares de pessoas sobre a necessidade de quebrar o isolamento mesmo com todos os riscos associados ao contágio. Como resultado, as cidades foram vendo as medidas de combate ao coronavírus serem deslegitimadas paulatinamente. Nesse contexto, nova manifestação foi convocada com um discurso ainda mais radical ao defender um novo AI-5, decreto que inaugurou o período mais violento da ditadura militar dos anos 1964-1985 no Brasil.

Não vou me alongar nestas recordações porque as consequências disso reverberam até hoje nos jornais: o negacionismo, as valas coletivas, o falso tratamento precoce, a falta de oxigênio, as verbas superfaturadas de remédios e alimentos, a falta das vacinas e mais recentemente, a prisão do deputado federal Daniel Silveira (PSL) decretada por ameaçar juízes do STF.

Mas é importante trazer esses eventos de volta à memória visto que o argumento que vinha sendo usado deliberadamente por Bolsonaro para justificar sua postura inconsequente diante da pandemia era justamente a preocupação com a fome. Esse argumento foi muito poderoso e usado de maneira extremamente cínica.

Oras, Bolsonaro nunca esteve preocupado com a fome no Brasil! Sua primeira medida ao tomar posse foi extinguir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA e outros colegiados que repercutiam no campo da alimentação. Ele também esvaziou inúmeras políticas ligadas à produção e aquisição de alimentos de agricultores familiares, responsáveis por 70% dos alimentos consumidos no país.

Bolsonaro recorreu ao discurso da fome apenas porque sabia que poderia sensibilizar a população para romper a quarentena, minimizando os riscos de contaminação. Veja, o Brasil só conseguiu sair do mapa da fome em 2014, seis anos antes da pandemia começar! Trata-se assim de uma memória muito presente nos lares brasileiros. Quem passou fome um dia sabe bem o que isso significa: a fome escurece a vista, dá tontura, tremedeira, deixa fraco. A fome dói, a fome mata! Por isso qualquer argumento que lembre a fome é muito potente…

Se Bolsonaro estivesse realmente preocupado com a fome, porém, ele teria feito um programa especial voltado ao seu combate durante a pandemia. Teria aprovado o PL 735 sem vetos, de apoio à agricultura familiar e articulado outras políticas ligadas à alimentação. Ele também saberia que um programa com esse propósito, associado ao auxílio emergencial, poderia lhe garantir imensa popularidade. Mas não. Bolsonaro foi eleito com um discurso de ódio e de morte. Seria uma surpresa se ele resolvesse se comprometer com algo demasiadamente humano. Quando ele criticou o isolamento social dizendo que a população iria morrer de fome, ele estava apenas reiterando sua política de Estado mínimo. Uma política que não protege a população de forma alguma, nem do vírus, nem da fome.

Nesses tempos em que o bem-estar e o cuidado tornaram-se centrais para o enfrentamento da pandemia, as necessidades mais imediatas como oxigênio e alimentação estão em disputa, tornando nossa já frágil existência ainda mais efêmera. O momento, portanto, exige profunda reflexão sobre essa postura nefasta de um homem que deveria olhar pelos seus mas que promove sua extinção. Afinal, espera-se que o presidente da nação seja o primeiro a dar esperanças à população, não a jogá-la no precipício sem qualquer pudor.

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