Qual o lugar da comida na sua vida?

A nutricionista Paola Altheia quebra paradigmas com suas ideias sobre alimentação, obesidade e saúde e já soma mais de 100 mil seguidores na sua página do Facebook “Não sou Exposição”, onde divulga informações sobre gordofobia, comportamento alimentar e empoderamento feminino. Nesta entrevista, conversamos sobre alimentação saudável, o lugar da comida na vida das pessoas e como o ambiente em que vivemos nos empurra para um consumo excessivo de alimentos.

Paola, pra começar, conta um pouco sobre o “Não sou Exposição”!

Eu fui bailarina clássica boa parte da minha vida. Em torno de 19, 20 anos meu corpo ainda era muito parecido com o de uma criança. Nessa época, comecei a questionar certos valores e parei de dançar. Foi quando comecei a me alimentar normalmente e meu corpo passou a ser mais curvilíneo. E na medida que meu corpo foi mudando, os homens começaram a olhar para mim, falar bobagens ou dar palpites que não solicitei. O “Não sou exposição” surgiu na forma de blog há alguns anos e foi resultado de um sentimento. De repente, meu corpo estava exposto no mundo como se fosse galeria ou domínio público e todo mundo estivesse convidado a dar uma opinião, só porque sou mulher.

Foi nesse momento que você começou a questionar os padrões de estética e a relação com a alimentação ?

Eu ainda era bailarina e estava na metade do curso de Nutrição quando esses questionamentos surgiram. Fui estudar Nutrição porque queria trabalhar com atletas e bailarinos. E acreditava que a preocupação com o não engordar, fazer dietas, era algo típico dessas pessoas que trabalham com o corpo e com a estética. Mas comecei a observar que as meninas que estudavam comigo na faculdade não faziam nenhuma atividade ligada ao corpo e mesmo assim reproduziam a conversa das amigas do Ballet: “ah, eu estou com uma gordurinha aqui”, “tenho que emagrecer”, “se você beber o suco ou o chá não sei das quantas você perde tantos quilos”. Foi quando percebi que isso é uma norma na população feminina, não era restrito apenas às ginastas, modelos e bailarinas. Depois disso, comecei a repensar muitas coisas sobre o corpo e comecei a estudar temas que a gente não vê na faculdade de Nutrição.

O que falta no curso de Nutrição?

Tive muitas aulas sobre “tratamento” da obesidade que diziam para aumentar a carga de atividade física e diminuir ingestão calórica. Mas nunca tive aulas sobre aspectos políticos, sociais, emocionais e psicológicos da obesidade. É sempre a mesma abordagem pragmática e técnica. Às vezes eu digo que Nutrição deveria ser de humanas. Existe uma grande ênfase nas questões técnicas, mas a subjetividade (que é tão importante!) é totalmente deixada de lado. O aluno estuda fisiologia, bioquímica, patologia e como fazer orientações para cada doença. Mas do ser humano que está com o problema, ninguém quer nem saber.

Você é muito conhecida pelas suas ideias sobre gordofobia… Como o público tem reagido a essas ideias?

É curioso porque durante muito tempo fiz o NSE de forma anônima. E recebia mensagens me chamando de “feminista gorda”, “sedentária preguiçosa”. Mas quando comecei a assinar meus textos e viram que era magra, o discurso mudou um pouco: “você parece uma boneca, não tem noção do que é ser marginalizado por causa da aparência, então você não tem moral para reclamar”. Ou então “você é magra, nunca precisou fazer dieta, não tem noção do que é sofrer gordofobia, cala a tua boca”. Aceitação corporal é um tema muito espinhoso, porque ninguém tem legitimidade para falar sem sofrer algum tipo de reprovação. A pessoa sempre será acusada de ser magra demais, gorda demais, feia demais, bonita demais, jovem demais, velha demais. Acho que a coisa toda é orquestrada para funcionar dessa maneira, justamente para ninguém questionar o status quo.

As pessoas têm corpos diferenciados? Existe a pessoa magra e pessoa gorda por natureza?

Sem sombra de dúvidas!! Existe um discurso dominante que faz com que as pessoas achem que ser gordo é sempre um estado temporário. As pessoas não dizem que são gordas, mas que estão gordas. Mesmo que o indivíduo tenha sido uma criança gorda, um adolescente gordo, um adulto gordo… Essas pessoas passam a vida acreditando que são “magros em potencial”. Mas a maioria das pessoas magras não faz nada para ser assim. O nosso poder de modificar a nossa constituição física é muito menor do que as pessoas imaginam. Da mesma maneira que existe diversidade cultural, sexual e tantos tipos de diversidade, existe a diversidade corporal.

E existe aquela pessoa que é magra mas engorda devido a uma alimentação compulsiva, por exemplo?

A palavra compulsão hoje é muito banalizada. Às vezes a pessoa compra um bombom após o almoço e já sai dizendo que é “compulsiva por doces”. A compulsão alimentar não é isso! É um transtorno alimentar muito grave, uma sensação de descontrole imensa. Tanto que é classificado no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Mas há outros comportamentos alimentares problemáticos, apontados como TANE (Transtorno Alimentar Não Especificado). É a grande maioria dos casos. São pessoas que têm crenças, rituais, restrições ou exageros muito frequentes. O exagero não chega a ser uma compulsão, mas é um comer distraído, desatento. E isso, claro, pode levar a um ganho de peso. Pode parecer difícil de acreditar, mas a prática crônica de dietas é um dos principais fatores que levam a um ganho de peso progressivo a longo prazo. A pessoa tenta comer pouquíssimo durante alguns dias, mas por fim tem episódios de hiperfagia em resposta a isso.

Por que isso acontece?

No meu entendimento, não existe uma educação adequada a respeito de alimentação, saúde e controle de peso. Há muitas crenças disfuncionais que são difundidas pela mídia, por profissionais de saúde e mesmo por autoridades governamentais. As pessoas não sabem que alimentação saudável precisa ser uma prática diária e constante. A cultura das dietas vende a ideia de emagrecimento como um processo com começo, meio e fim. A alimentação saudável é vista como sacrifício, castigo, as pessoas não vêm a hora de acabar a dieta. E os discursos proibitivos sobre alimentação fazem com que muitas pessoas tenham uma relação turbulenta com a comida, permeada de culpa, medo e vergonha.

É difícil ter uma alimentação saudável?

Eu acredito que o que torna bastante difícil é a mentalidade das pessoas. Um dos aspectos que contribuem para dificultar é a expectativa de linearidade. Tudo tem que ser certinho, perfeito, equilibrado. A pessoa começa uma dieta e se de repente toma um sorvete no meio do caminho, pensa que colocou tudo a perder. Achar que tudo está perdido encoraja, então, a atitude de “chutar o balde”. Ou de despedida. A pessoa pensa “É a última vez que eu faço isso” e recomeça sempre. A expectativa de perfeição é combinada com muita autocrítica e o resultado disso, invariavelmente, é a sensação de fracasso. Além disso, tem os discursos maniqueístas, que vêm da mídia e dos profissionais, dos médicos e nutricionistas.

Que tipo de discurso?

Discurso terrorista, dicotômico e alarmista. Que classifica a comida entre “do bem” e “do mal”. Fazem o público pensar que comida é veneno, droga, algo maligno. Existe até um julgamento moral envolvido nessa dicotomia. Só é uma “boa pessoa” ou um “bom cidadão” quem segue uma alimentação limpa, saudável, equilibrada, ética. Alguns nutricionistas no Instagram dizem que se você come alimentos açucarados, fastfood ou industrializados você é uma pessoa fracassada, preguiçosa, negligente. Eu digo aos meus pacientes que não devemos classificar comida como “permitidas e proibidas”, mas sempre em termos de “mais frequentes e menos frequentes”.

Mas esses parâmetros do mais frequente e menos frequente podem ser bem fluídos, você não acha?! Como você trabalha essa questão em consultório?

Muitos pacientes se assustam quando eu desobrigo de seguir dieta. Muitos creem que parar de fazer dieta significa comer de forma desregrada e sem freios. Isso simplesmente não acontece. Porque a permissão para comer dissipa a ansiedade que faz certos alimentos serem particularmente mais convidativos. E porque ninguém consegue comer fast food de forma contínua. Após um período se alimentando de forma “recreativa”, a pessoa começa a sentir letargia, desconforto e mau humor. O corpo vai começar a “pedir” por alimentos mais saudáveis e frescos… Quando o indivíduo aprende a pensar sobre alimentação de uma maneira mais funcional e se livra do sentimento de culpa, o interesse por uma alimentação com mais qualidade é algo que surge espontaneamente. Eu nunca dou ordens. Acredito que o indivíduo tem total autonomia para realizar escolhas.

O que é bom comer para ter uma alimentação equilibrada?

A comida precisa ser trivial, caseira, leve e minimamente processada. Fast food, doces e frituras não podem compor a base da nossa rotina. Refrigerantes, sucos e bebidas alcoólicas devem ser consumidos mais ocasionalmente. Todas as pessoas sabem disso! A questão não é passar informação. A questão não é dizer ao público o que é saudável e bom. O grande problema é a relação que as pessoas estabelecem com a comida. É o jeito que as pessoas comem. São os pensamentos inflexíveis e o terrorismo alimentar que tornam algo que deveria ser simples e prazeroso (alimentação saudável) num bicho de sete cabeças. O que o público precisa urgentemente é aprender a fazer as pazes com a comida.

Qual é o lugar que a comida deveria ocupar na vida das pessoas?

O principal papel que a comida ocupa na nossa vida deve ser o de nutrição e sustento. Ou seja, nos manter vivos. Mas de maneira alguma é o único. A comida também envolve tradições, cultura, celebrações, memória afetiva. Tudo isso faz parte. Então quando a pessoa tem uma visão totalmente utilitária e pragmática da comida (“temos que comer para viver, não viver para comer”) isso é bastante desequilibrado, porque o prazer que o alimento traz é algo que faz parte de uma vida saudável. Da mesma forma que uma alimentação hedônica, totalmente direcionada pelo sensorial e pelo prazer é algo que não é adequado. A alimentação saudável orbita entre o trivial e o requintado.

É possível controlar a fome?

A fome fisiológica é uma necessidade do corpo que nós não podemos ignorar. É exatamente como a vontade de urinar ou o sono. Quando você está com fome, você deve comer. Não tem como “enganar” a fome. Os sinais são inúmeros. A textura da saliva começa a ficar mais fluida, o estômago começa a fazer barulho e arder um pouco… A pessoa que fica sem comer inevitavelmente irá desmaiar e/ou adoecer. Por isso é importante lembrar que a fome fisiológica é diferente da fome emocional (ou desejo), porque o desejo não é inegável. O desejo não é o corpo informando que precisa se alimentar. É uma vontade direcionada pela mente. Quando a pessoa aprende a fazer essa diferenciação, na maior parte das vezes ela vai escolher os alimentos menos processados e mais nutritivos. Alimentos mais açucarados e gordurosos são mais desejados quando a pessoa está sendo direcionada pelo emocional.

E como faz para controlar o desejo?

Se a pessoa sente um impulso para comer um chocolate após o almoço, por exemplo, vale lembrar que ela pode fazer diferente. Ela tem escolha. Escolher não comer o doce resulta em desconforto, mas a possibilidade de escolha sempre existe. Também acho importante lembrar que o que define se o consumo de algum alimento será prejudicial a longo prazo é a quantidade e a frequência do consumo. É muito menos impactante para o metabolismo comer um bombom por dia ao longo de sete dias do que sete bombons de uma vez só no “dia do lixo”. Comer doce diariamente pode não ser um problema. Depende de como a pessoa administra as escolhas.

Que escolhas são essas?

A pessoa precisa ter recursos para não cair no que o desejo está indicando a todo momento. Os desejos por alimentos mais açucarados e gordurosos são muito comuns porque eles geram satisfação. Abusar de doces normalmente envolve um mecanismo de gratificação imediata: o indivíduo come por cansaço ou “merecimento”. Chocolate pode “resolver” problemas a curto prazo, por isso tantas pessoas recorrem a esse comportamento. Mas diante do quadro de exagero alimentar a pergunta que precisa ser respondida é: se eu não estivesse comendo, com qual sentimento eu precisaria estar convivendo? Após a identificação, o que pode ser feito ao invés de comer? Trata-se de um trabalho de reconstrução de habilidades emocionais, cognitivas e comportamentais para quebrar o piloto automático da alimentação emocional. A grande questão é que atualmente todos querem uma solução rápida. A maioria das pessoas vive num estado reativo e não tem costume nem disponibilidade para investir no autoconhecimento.

Por outro lado, noto que tem muita gente sofrendo com um excesso de preocupação na hora de comer, o que gera certa ansiedade…

Bom, aí entramos na seara da ortorexia, que é o transtorno do milênio. A ortorexia é um transtorno alimentar paradoxal: a busca pela saúde deixa as pessoas doentes. É uma obsessão pelo alimento limpo, livre de agrotóxicos, corantes, conservantes e agentes causadores de câncer. A pessoa vai excluindo grupos alimentares da dieta progressivamente até que o leque de opções se torne mínimo. E isso é perigoso. Até porque atualmente tudo que comemos é considerado “errado” de alguma maneira. Sempre existirá um argumento para classificar nossas escolhas alimentares como não saudáveis. Não à toa as pessoas se sentem ansiosas e inseguras diante da alimentação. A educação que recebemos é feita na base da culpa, do medo e do terrorismo.

Como evitar essa situação?

Precisamos ser menos autocríticos e entender que não existe padrão alimentar perfeito. Até porque ninguém está vivendo em ambiente controlado de laboratório. A expectativa da perfeição é sempre muito grande e não condiz com a vida real. Muitas pessoas querem ter uma linearidade alimentar porque querem fazer tudo “certo” e quando comem algo que consideram inadequado ou errado sentem muito arrependimento e culpa e acabam se sentindo merecedoras de punição. A melhor maneira de evitar a ansiedade em torno do que comemos é dissipar a mentalidade dicotômica que divide a comida entre “boa” e “ruim”. Comida é comida. A chave para uma vida saudável é a maneira que a pessoa administra o consumo.

Mas isso não tem relação com o próprio sistema alimentar, que tornou-se industrializado? Como funciona essa questão?

Sabemos que nossa alimentação deve ser o menos industrializada possível, o menos processada possível. Mas existe um fato inegável: existem oligopólios que decidem o que vamos comer. E apesar de termos toda essa preocupação com a sustentabilidade, a soberania alimentar e o fomento da agricultura familiar, são poucas as pessoas que têm realmente a escolha de sair da sombra desses oligopólios, das poucas empresas que produzem e distribuem o que comemos. É uma questão muito polêmica e muitos desses problemas nós não temos poder para resolver no âmbito individual. Esse sentimento de impotência também contribui para o mal-estar que as pessoas vivem em relação à alimentação.

Existe pessoa obesa saudável?

Existe, claro! Uma moça certa vez veio consultar comigo com obesidade I segundo o IMC (Índice de Massa Corporal). Ela era fisicamente ativa, se alimentava muito bem, não tinha nenhuma doença e o peso era estável há anos. Mesmo assim um médico nutrólogo entregou uma apostila de “tratamento” da obesidade, com uma dieta. Eu analisei todos os exames e perguntei: “Você precisa ‘tratar’ o que, exatamente?” Classificar corpos humanos como adequados ou inadequados a partir de um cálculo entre peso e medida é algo que tem muito mais relação com controle social do que com saúde.

Como assim? Qual é a relação entre IMC, obesidade e saúde?

A obesidade é uma classificação da Antrometria, que é um segmento da Antropologia. E existe nessa classificação um elemento de eugenia que estabelece quais são as pessoas “adequadas”, “aptas” e “aceitáveis”, e quais estão desviando da norma. Este sistema gera opressão e reprovação social. As pessoas gordas são doutrinadas para fazerem o que for necessário para se enquadrar. Uma recente pesquisa do Ministério da Saúde revelou que um em cada cinco brasileiros está obeso. Isso significa dizer que há uma pessoa doente e quatro saudáveis? Não! Significa que existe um gordo e quatro magros!

E por que o IMC tornou-se uma referência para medir a saúde?

O IMC é uma boa ferramenta de pesquisa para populações numerosas, para fazer o acompanhamento por cidades e regiões, para saber o que aconteceu com a sociedade ao longo de certos intervalos de tempo. O IMC é uma ferramenta interessante quando se está trabalhando com coletividade. Mas no consultório, no trabalho individual, ele não tem nexo. O IMC não é um parâmetro eficaz para avaliar saúde porque não reflete composição corporal nem marcadores bioquímicos. É literalmente um tamanho. É um cálculo de quilos por metro quadrado.

Mas a questão central sobre obesidade não é justamente o aumento coletivo do consumo de alimentos processados e ultra processados?

Existe realmente um aumento da disponibilidade de alimentos industrializados com alto teor de gordura, sal e açúcar. Mas o fator que é realmente decisivo para o aumento de peso da população ao longo das últimas décadas é o estilo de vida sedentário e os mecanismos poupadores de energia. O estilo de vida dos centros urbanos favorece que as pessoas engordem e o foco no papel do ambiente neste quadro é mínimo. O discurso de responsabilização do indivíduo é muito forte. As pessoas acham que as pessoas engordam porque comem demais, e isso é algo que não procede. Não há causa única. É um quadro multifatorial que envolve dezenas de variáveis.

Como fazer para que a pessoa gorda não fique frustrada com seu peso?

Precisamos primeiro falar sobre responsabilização do indivíduo. Nas últimas décadas do século XX a mídia, as autoridades e os profissionais da saúde começaram a mudar o discurso e introduzir o conceito da responsabilização do indivíduo pela própria saúde, ou seja: a culpabilização de cada indivíduo pelo próprio adoecimento. Até então essa ideia a respeito do adoecimento não existia. As pessoas até então não eram consideradas as causadoras dos próprios problemas.

Isso impactou a vida das pessoas gordas?

Sim. A pessoa acha que engorda por que é preguiçosa, negligente, não se cuida… Hoje em dia “se você adoecer, a culpa é sua!” é uma ideia de senso comum. Na perspectiva neoliberal isso é muito interessante porque as prestações de serviço são infinitas e ninguém precisa discutir sobre as questões econômicas, sociais e políticas que têm impacto na qualidade de vida das pessoas. Se temos um Estado que falha em garantir condições dignas de vida e saúde para os cidadãos, é muito providencial a mentalidade do “cada um por si”.

Mas ainda que existam outros fatores que afetem nossa saúde, nós também não temos certa responsabilidade sobre ela?

Esse é um jeito de pensar sobre saúde relativamente novo. As gerações mais antigas percebem a doença como um infortúnio, algo que não temos controle nem culpa… ela simplesmente acontece. Atualmente a saúde é vista como bem de consumo. É uma coisa que você adquire, investe, constrói e mantém…tudo dentro da perspectiva do mercado. A questão da obesidade como algo que o indivíduo tem total poder de modificar é algo muito controverso. E é muito fácil a gente se deixar levar por esses discursos e não perceber que o quadro é maior e mais preocupante. A obesidade é multicausal. É algo que se relaciona com fatores econômicos, políticos, sociais, culturais, familiares, genéticos…

O aumento das doenças crônicas não transmissíveis nos anos 1970, por exemplo, não tem a ver com a expansão do estilo de vida americana, incluindo aí o consumo da comida ultra processada, que os EUA popularizaram no mundo inteiro?

Sim, tem a questão da ocidentalização. De copiar o modelo de vida norte-americano. E tem também o marketing agressivo que encoraja as pessoas a consumirem alimentos calóricos o tempo todo. Então vivemos no que a literatura chama de ambiente obesogênico. Existe uma vasta oferta de comida em todos os lugares, desde o posto de gasolina até a farmácia. Nos dizem o tempo todo (de forma direta ou indireta) que é impossível se divertir sem comida. O estilo de vida que construímos favorece muito que a pessoa engorde e quando isso acontece, surgem as acusações. A pessoa é vista como alguém negligente e derrotista.

É possível romper com esse sistema?

A única forma de não se deixar levar por esse sistema é ter senso crítico para analisar as mensagens que recebemos a respeito de alimentação e saúde. Na década de 80-90, por exemplo, diziam que um único ovo era capaz de causar um ataque cardíaco. As pessoas morriam de medo do colesterol! Por causa da guerra contra a gordura, a alimentação tinha que ser fat-free e por consequência a alimentação das pessoas começou a ter uma proporção maior de carboidratos. Atualmente relaciona-se o aumento da obesidade e das doenças crônicas com o alto consumo de carboidrato, mas esquece-se que as pessoas se acostumaram com esse padrão alimentar porque houve um processo de demonização da gordura.

Parece que essa questão da alimentação ainda tem muito o que ser debatida com a população…

Muitos problemas nascem a partir do discurso maniqueísta que propõe solução única para tudo. Hoje em dia as pessoas acham que carboidrato é “do mal” e gordura é “do bem”. Os jovens de hoje comem 20 ovos por dia, mas morrem de medo de comer pão! Corpo, saúde e alimentação são questões muito discutíveis. Mas a mídia, os profissionais da saúde e o governo querem fechar em uma resposta única, tentando chegar em uma regra que funcione para todos. O debate é urgente, porque as pessoas estão definitivamente desnorteadas.

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